O grande debate sobre os riscos do uso da IA

darpa_steven_walker.jpgPor Ethevaldo Siqueira, com Washington Post de 07-12-2018
11/12/2018 - Matéria do jornalista Peter Holley, do Washington Post, analisa entrevista Steven Walker, diretor da DARPA (Agência de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA), sobre a utilização da Inteligência Artificial (IA) para salvaguardar a segurança nacional. E minimiza os riscos dessa tecnologia para o ser humano, hoje.

Para esse diretor da DARPA os supostos perigos da Inteligência Artificial: "não são daquelas coisas que me fazem perder o sono”. E acrescenta: “A inteligência artificial (IA) permanece previsível e terá de se tornar muito mais sofisticada antes de representar uma séria ameaça para os seres humanos”, segundo afirma o chefe da Agência de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA).

Na foto, o diretor da Agência de Pesquisa Avançada de Defesa, Steven H. Walker / Crédito: Michael Pausic / Força Aérea dos EUA

Durante um pingue-pongue de perguntas e respostas com o colunista David Ignatius, do Washington Post, na quinta-feira, Steven H. Walker, diretor da DARPA, disse que a IA ainda é "algo muito frágil", com pouca capacidade para atuar de forma independente.

"Pelo menos no Departamento de Defesa hoje, não vemos máquinas fazendo nada sozinhas", disse ele, observando que os pesquisadores da Agência estão intensamente focados na construção de parcerias "homem-máquina". "Eu acho que estamos muito longe de uma IA generalizada, mesmo na Terceira Onda que estamos perseguindo."

"Não é uma daquelas coisas que me tira o sono nem me mantém em pé à noite", acrescentou, referindo-se aos perigos colocados pela IA.

Uma das pessoas que pensam diferente é Elon Musk, que diz: “Para evitar que se tornem como macacos, os seres humanos devem fundir-se com máquinas”.

Os comentários de Walker chegam em meio a um cenário de séria controvérsia em torno do uso militar da Inteligência Artificial. Em junho, milhares de funcionários do Google assinaram uma petição que protesta contra o papel que a empresa desempenha em um projeto do Departamento de Defesa baseado o uso da inteligência de máquinas.

O Google eventualmente desligado do Project Maven, programa que usa IA para marcar automaticamente carros, edifícios e outros objetos em vídeos gravados por drones que voam sobre zonas de conflito. A acusação dos funcionários do Google é a de que os militares se aproveitam da AI para matar com maior eficiência, mas os líderes militares alegaram que a tecnologia seria usada para manter o pessoal militar longe de perigos desnecessários ou, em última análise, salvando vidas.

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Smart Cities: cidades cada vez mais inteligentes

carlos_sandrini.jpg*Por Carlos Rodolfo Sandrini
14/12/2018 - Nas cidades inteligentes, o cidadão e os serviços essenciais estão conectados, utilizam energia limpa, reaproveitam a água, tratam o lixo, compartilham produtos, serviços e espaços, se deslocam com facilidade e usufruem de serviços públicos de qualidade. Além disso, a cidade inteligente cria laços culturais que une seus habitantes, propicia desenvolvimento econômico e melhoria da qualidade de vida.

Em busca do status de Smart City, cidades de todas as regiões do planeta irão investir entre US$ 930 bilhões e US$ 1,7 trilhões ao ano até 2025. Porém, mais do que investimentos, a cidade para ser inteligente, necessita de iniciativas inteligentes do poder executivo e legislativo.

A iniciativa privada tem se reunido em fóruns mundiais, como o SmartCity Business America, para apontar soluções e oportunidades de negócios no mercado das Smart Cities. Entre as adaptações, que seguem o desejo da população, estão a adoção de conceitos e tecnologias sustentáveis; inclusão urbana, ao contrário do isolamento das periferias; educação agregadora para evitar a radicalização; foco total na educação presencial e inclusiva até os 18 anos; e planejamento urbano que contemple os espaços para ensino e educação, que hoje não é apenas uma questão acadêmica.

Com essas novas características, as cidades inteligentes terão um aumento da oferta de emprego nos setores públicos, de hospitalidade e, principalmente, da economia criativa, área que tem crescido exponencialmente, tendo como processo principal o ato criativo e resultando, entre outros, na transformação da cultura local em riqueza econômica.

Essa evolução social e cultural promete gerar novo desejos, fazendo com que a cidade seja utilizada cada vez mais por prazer e promovendo ideais como inclusão, aproximação, conectividade, relacionamento e compartilhamento. O conceito aborda, também, a verticalização das cidades, com práticas sustentáveis e encurtando distâncias com soluções inteligentes de transporte, com o carro deixando de ser sonho de consumo; e uma transformação legislativa, que deverá possibilitar e encurtar caminhos para o desejo da maioria.

As novas tecnologias vão permitir, ainda, que as pessoas possam trabalhar em casa, além de não precisarem se deslocar para adquirir o básico ou resolverem problemas burocráticos. Não tem mais lógica as pessoas se dividirem diariamente entre dois ambientes (residencial e comercial). Assim como não existe lógica no horário comercial padrão. Por qual motivo a maioria das pessoas é obrigada a se deslocar nos mesmos horários? Veremos, em breve, o fim dos prédios comerciais como conhecemos. Já os prédios residenciais ganharão novos conceitos e funcionalidades.

Fica claro que os próximos anos serão de transformações intensas nos grandes centros urbanos. O conceito das Smart Cities tem ganhado força em todos os continentes e, em breve, seus benefícios estarão presentes em nossas vidas. Em um ambiente cada vez mais degradado e com dicotomias religiosas e políticas, as cidades inteligentes, apostando na inclusão, em soluções compartilhadas e em serviços públicos eficazes, podem representar a oportunidade de viver numa sociedade ideal.

*Carlos Rodolfo Sandrini é arquiteto, urbanista e presidente do Centro Europeu (www.centroeuropeu.com.br).

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Confiança do brasileiro na tecnologia caiu

bi_crise.jpg12/12/2018 - O Indicador de Confiança Digital (ICD) é uma pesquisa contínua que mede a perspectiva do brasileiro em relação à tecnologia frente a mudanças políticas, sociais, econômicas, ambientais ou mesmo tecnológicas. Em sua segunda publicação o ICD apresentou uma queda de aproximadamente 10% em seu desempenho, passando de 3,9 para 3,4 (numa escala que vai até 5).

Uma das razões apontadas pelos entrevistados foi o conturbado momento das eleições presidenciais. "Esse cenário de extrema polarização inundou a internet de conteúdo sobre o tema. Entre ideias, ataques e mentiras, o assunto foi pauta de inúmeras conversas pessoais além dos grupos de amigos e família no Facebook e WhastApp. As pessoas ficaram esgotadas", afirma André Miceli, Coordenador do MBA de Marketing Digital da FGV e responsável pela pesquisa.

A pesquisa mediu a opinião dos brasileiros sobre a tecnologia através da avaliação de sete afirmações. A avaliação resulta em uma porcentagem que demonstra a perspectiva do brasileiro com relação a tecnologia, quanto mais próximo de 100% maior a confiança.

"Agora os ânimos estão mais calmos, mas isso deve mudar. Com a posse do presidente eleito, o tema deve ressurgir durante os primeiros 100 dias de governo e a oposição apontará qualquer falha, incoerência ou agendas que não concorda – o que é normal. Mas, dessa vez, a discussão deverá ser menos intensa, teremos uma manifestação menor do que nas eleições. Por isso, não será uma surpresa se o índice subir", afirma Miceli.

A partir desta segunda edição do ICD será possível identificar quais comportamentos são padrões e quais são anomalias e sazonalidades. Os mais jovens, com idade de 13 a 17 anos, mais uma vez, se mostraram como a faixa-etária menos otimista, tendo novamente a menor pontuação. Essa faixa apresenta um paradoxo interessante: são consumidores ávidos de tecnologia, apresentam o melhor desempenho na pergunta "a internet me ajuda a relaxar" e, por outro lado, apresentam o pior resultado ao dizer que a tecnologia vai gerar novos empregos.

Mais uma vez a pesquisa mostrou é que o brasileiro, de uma forma geral, é otimista quando o assunto é internet e tecnologia. A pesquisa coleta dados há um ano e já participaram milhares de pessoas de todas as idades, regiões do Brasil, com renda e níveis de escolaridade diversos. Curiosamente, quase 90% dos entrevistados concordam parcial ou totalmente com a afirmação "espero sempre o melhor da tecnologia.

Outro comportamento que se apresentou novamente foi o otimismo da faixa acima de 65 anos. Os idosos tiveram um dos resultados mais altos na primeira edição do estudo e, agora, tiveram o melhor desempenho. Eles apresentam os resultados mais altos em 3 dos 7 indicadores.

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Quais as principais tendências do BI para 2019?

previsao.jpg03/12/2018 - Um novo ano se aproxima. Com os olhos no futuro é hora de avaliar tendências e tecnologias emergentes que moldarão os próximos anos da indústria de business intelligence à medida que as organizações buscarem alternativas inovadoras. 2018 foi um ano de inovações, além de aprimoramentos de produtos e serviços, levando as organizações a uma análise sobre como priorizar uma abordagem moderna de BI que conduza a empresa a obter o máximo valor dos seus dados.

Pensando no quem vem pela frente, Adriano Chemin, vice-presidente da Tableau para América Latina, empresa de software para análise visual de dados, reuniu as principais tendências de Business Intelligence para 2019 e além.

1. Inteligência Artificial Explicável: modelos mais transparentes e maior confiança nos dados.

Que a Inteligência artificial (IA) veio para ficar é fato, graças ao aprendizado de máquina empresas conseguem criar clusters de comportamento, identificar tendências de mercado, avaliar riscos, tomar decisões rápidas e automatizar milhões de atividades que antes consumiam tempo e recursos. Não dá pra negar que o IA abriu um mundo de possibilidades para o universo de BI, e que muitas das evoluções que estamos vendo (e que veremos nos próximos anos) foram conquistadas graças às possibilidades oferecidas pela tecnologia de IA.

Por outro lado, quanto mais dependemos da IA, maior é nossa desconfiança quanto à credibilidade das recomendações baseadas em modelos, já que grande parte das ferramentas que utilizam aprendizado de máquina não fornecem uma forma transparente de ver os algoritmos ou a lógica por trás das decisões e das recomendações. É aí que vem o IA Explicável, a prática de compreender e apresentar exibições transparentes dos modelos de aprendizado de máquina. Se é possível questionar seres humanos, por que não ter a mesma opção com o aprendizado de máquina na tomada de decisões?

A IA Explicável permite que o corpo executivo, cientistas e analistas de dados entendam e questionem a forma como o aprendizado de máquina é aplicado no dia a dia de uma empresa, gerando mais transparência e confiabilidade nos resultados.

2. Linguagem natural transformando a dinâmica das organizações: conversas analíticas elevadas a um novo patamar.

O processamento de linguagem natural (NLP) está quebrando paradigmas em todos os campos da tecnologia e mudando a forma como as pessoas trabalham, ouvem música, solicitam informações sobre o tempo e, cada vez mais, obtém respostas sobre um painel de dados.

A habilidade de obter respostas por meio de um comando de voz permite que pessoas com todos os níveis de conhecimento possam questionar seus dados, e ao perguntar, obter uma resposta concreta e veloz. Paralelamente, a linguagem natural está evoluindo para dar suporte à conversação analítica, ou seja, a conversa entre o ser humano e o sistema sobre seus dados. O sistema aproveita o contexto da conversa para entender a intenção por trás da consulta do usuário e promover o diálogo, criando uma experiência de conversação cada vez mais natural.

À medida que a linguagem natural evolui com o setor de BI, ela abrirá portas para a adoção de análise e ajudará a transformar ambientes de trabalho em operações autônomas e impulsionadas por dados. O NPL eleva o patamar analítico das organizações como um todo, permitindo que um CEO atarefado, ou um analista de marketing sem tanta destreza com análises numéricas obtenham as respostas que necessitam para executar seu trabalho de forma precisa.

3. Análise acionável: mobilidade dos dados impulsiona ações.

Velocidade é palavra-chave na vida de quem trabalha com análise de dados na atualidade, seja no acesso às informações ou no tempo de resposta para executar a ação necessária, tudo precisa estar alinhado em um único fluxo de trabalho e disponível no lugar e no dispositivo que o cientista/analista de dados desejar para que ele possa agir rápido.

Pensando nisso, fornecedores de plataformas de BI oferecem análise em dispositivos móveis, análise incorporada, extensões de painel e APIs que incorporam a análise ao local onde as pessoas executam seu trabalho evitando a troca de aplicativos (ou servidores) desnecessária e melhorando o fluxo de trabalho. A mobilidade permite, por exemplo, que o CEO de uma empresa acompanhe a evolução de seus negócios de qualquer lugar do mundo, e acione sua equipe em tempo real. A incorporação da análise em fluxos de trabalho diversos, leva ao que chamamos de análise acionável, um avanço poderoso que promete atender as necessidades analíticas dos mais diversos departamentos, e empoderar funcionários de diferentes setores por meio de dados contextualizados e sob demanda.

4. Storytelling é a nova linguagem dos dados.

Dados são a forma mais poderosa de comunicar uma descoberta, apresentar um insight ou expor seus resultados, e nada como o Storytelling para gerar aquele impacto positivo. Storytelling análitico, ou contar uma história por meio de dados, é uma das tendências mais marcantes do mundo do BI, e uma forma muito mais atraente de expor todas as etapas de suas análises de forma acionável e fácil de entender.

À medida que as empresas criam uma cultura de análise, contar histórias com dados tem ganhado novos significados. Ao invés de apresentar uma conclusão única, o storytelling promove a criação de um diálogo e contribui para uma abordagem coletiva da análise. Com o storytelling, tanto o criador do painel como o público se tornam responsáveis por chegar a uma conclusão sobre o que os dados estão dizendo - estimulando a diversidade de ideias e promovendo o trabalho coletivo ou co-criação de painéis.

5. Comunidade analítica: uma aposta certeira para maximizar a adoção de BI nas empresas.

Ter uma plataforma de BI funcionando não significa extrair o máximo potencial dessa ferramenta. E por mais duro que pareça, o fato de alguém, ou um determinado departamento abrir relatórios uma vez ou outra, não significa fazer bom proveito dos dados, e muito menos que essa consulta trará ações concretas ou terá efeitos práticos. De nada adianta ter o BI dos sonhos se não houver adoção massiva da ferramenta.

Em muitas empresas a adoção de uma plataforma de BI de sucesso começa com o alto escalão da empresa e com a percepção de que é preciso integrar as diferentes fontes de dados e extrair valor. E para gerar valor, nada como uma comunidade interna de usuários engajados, e métricas concretas para determinar como as pessoas estão usando a plataforma de BI para causar um impacto nos negócios. Falando em comunidade, empresas do mundo todo já perceberam o poder da co-criação analítica, e como pessoas com um background diferente conseguem trabalhar juntas para estabelecer métricas e descobrir insights por meio dos dados. O BI de autoatendimento democratizou o acesso a informação nas empresas. Agora o desafio é fomentar comunidades engajadas, transformar informação em ação e claro, medir os resultados. E viva o trabalho em equipe!

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Prepare-se para deixar de comer carne animal

carne_hi_tech.jpgPor Ethevaldo Siqueira, com Le Monde
14/11/2018 - Fiz uma tradução livre desta interessante matéria do Le Monde, que começa com a pergunta: “Preparados para deixar de comer carne de gado até o final do século?”

O jornal diz que, por volta de 2050, mais da metade da carne, dos laticínios e dos ovos em países de alta renda, não deverão ser de origem animal. E que até o final deste ano, você poderá entrar em um restaurante e encontrar frango criado a partir de células dessa ave em um biorreator, em vez de um animal.

O que deve ser feito para substituir completamente a carne de pecuária? Em um novo livro, The End of Animal Farming (La fin de l'élevage d'animaux), “O Fim da Agricultura Animal”, Jacy Reese, diretor de pesquisa e co-fundador do Instituto Sentience, um grupo (think tank) de reflexão sem fins lucrativos, diz que isso é algo que poderá acontecer até o fim do século.

As pessoas estão cada vez mais conscientes do gigantesco impacto ambiental da produção de carne e dos problemas associados às fazendas industriais, explica Reese. E nos últimos tempos, torna-se cada vez mais viável substituí-lo. "Temos acesso à tecnologia de alimentos e à infraestrutura comercial", diz ele.

Gigantes de carne como Cargill e Tyson estão investindo em startups, como Memphis Meat, que criou o primeiro bolinho de carne crescido em laboratório em 2016 e na Beyond Meat, que vende um hambúrguer baseado em plantas hiper-realistas no açougue dos supermercados Whole Foods. Da mesma forma, Richard Branson, que investiu em startups neste campo, acha que toda a carne pode ser "limpa" ou produzida a partir de plantas dentro de três décadas.

Isso exigiria mais incentivos dos Estados, explica o autor. "Se apenas um governo decidiu torná-lo um dos mais importantes problemas tecnológicos, da mesma forma que quando as energias renováveis foram colocadas na frente do palco, pudemos ver o progresso tecnológico realmente, muito rápido. Novas políticas como os impostos sobre a carne, que alguns governos já consideraram, também podem acelerar a política de aceleração de substituições.

Saiba mais:

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Um computador cultivará nosso alimento no futuro

celeb_maca.jpgPor Thais Sogayar, com informações do TED Talk de Caleb Harper
24/11/2018 -
Cultivar alimentos como conhecemos é coisa do passado. Pelo menos de acordo com Caleb Harper (foto), a instituição tão antiga quanto a própria civilização está com os dias contados, e esta é uma coisa positiva. Harper, pesquisador-chefe e diretor da Open Agriculture Initiative (OpenAG) do MIT Media Lab, apresenta uma idéia radical em seu TED Talk de 2015 – a de que um computador vai cultivar sua comida no futuro. Nele, Caleb demonstra um laboratório construído por ele e sua equipe, especificamente para produzir culturas de alimentos.

Mas longe de ser um simples jardim, este laboratório de cultivo aeropônico, pode controlar o ambiente de lavouras a um grau sem precedentes, que molda a maneira como o cultivo e os nutrientes que eles produzem. De seu computador, Caleb se orgulha de poder produzir consistentemente, uma cabeça de alface com um valor de pH de exatamente 6, porque 6,1 simplesmente não serve.

Por mais impressionante que seja, influenciar o valor nutricional de suas colheitas não é o que excita Harper. O ponto que ele quer enfatizar não são os dados que ele pode controlar, mas os dados que ele pode controlar e compartilhar. Com esse computador de código aberto, é possível registrar e enviar informações específicas, para cultivar uma cultura específica de uma maneira específica e, mais importante, replicá-la. Harber projeta a imagem de um mundo, onde os agricultores digitais experimentam e descobrem alimentos novos e deliciosos, e compartilham suas descobertas com o mundo inteiro. "Começamos a enviar informações sobre comida, em vez de enviar comida. Computadores de alimentos, servidores de alimentos, centros de dados de alimentos prestes, conectando pessoas para compartilhar informações", avalia Harper.

Segue abaixo a transcrição da palestra que Harper realizou em seu TED Talk de 2015 (ou ouça aqui)

Alguns lugares no mundo com tão pouca comida, talvez pouca demais. Em outros lugares, ONGs salvando o mundo. O excesso de produção agrícola gera oceanos ruins, com agrotóxicos, e pouca nutrição. Um processo incessante. E acho o tom atual dessa discussão incrivelmente "desempoderante". Então, como trazer isso para algo que entendemos?

Como explicar a crise usando uma maçã? Certamente todos comeram uma maçã semana passada. Quanto tempo acham que se passou desde que foi colhida? Duas semanas? Dois meses? Onze meses é a idade média de uma maçã num supermercado nos EUA. E não acho que na Europa ou em outros lugares do mundo seja muito diferente. Nós as colhemos e as armazenamos numa câmara frigorífica, onde colocamos gás. Na verdade, há comprovação de trabalhadores que entram nesses ambientes para pegar as maçãs e correm risco morrerem, pois a atmosfera que retarda o amadurecimento da fruta, é tóxica para os humanos.

Laboratório construído por Caleb e sua equipe especificamente para produzir culturas específicas, de uma maneira específica e, mais importante, compartilhar as informações

Como é que ninguém aqui sabe disso? Por que eu não sabia disso? Portanto, 90% da qualidade desta maçã, os antioxidantes, já não existe no momento em que a compramos. É praticamente uma bola de açúcar. Como é que somos tão mal-informados, e como mudar isso?

Acho que falta uma plataforma. Entendo de plataformas, computadores. Entrei na Internet bem cedo. Fiz as coisas mais estranhas nessa plataforma, mas conheci pessoas, e pude me expressar.

Como nos expressamos pela comida? Se tivéssemos uma plataforma, poderíamos nos sentir empoderados para questionar: "E se o clima fosse democrático?" Este é um mapa do clima no mundo. As áreas mais produtivas estão em verde, as menos produtivas, em vermelho. Elas se deslocam e mudam, e fazendeiros californianos agora são fazendeiros mexicanos. A China leva terra do Brasil para cultivar melhor os alimentos, e ficamos escravos do clima. E se cada país tivesse seu próprio clima produtivo? Como isso mudaria nosso modo de vida? Como isso afetaria a qualidade da vida e da nutrição?

Este é um mapa do clima no mundo. As áreas mais produtivas estão em verde, as menos produtivas, em vermelho

O problema da última geração foi produzir mais alimentos e a baixo custo. Bem-vindos à fazenda global! Construímos uma enorme fazenda analógica. Todas essas linhas são carros, aviões, trens e automotivos. É um milagre alimentarmos 7 bilhões de pessoas com tão poucos de nós envolvidos na produção de alimentos.

E se... construíssemos uma fazenda digital? Uma fazenda digital mundial. E se pudéssemos pegar esta maçã, de algum modo digitalizá-la, enviá-la em forma de partículas pelo ar e reconstituí-la do outro lado? E se?

Algumas dessas citações me inspiram a fazer o que faço. A primeira:

"A agricultura japonesa não tem jovens, água, terra nem futuro".

Foi com o que me deparei no dia em que fui a Minamisanriku, depois do desastre, uma parada ao sul de Fukushima. Os jovens foram para Sendai e Tóquio, a terra está contaminada, e eles já importam 70% dos alimentos. Mas isso não é exclusividade do Japão. Apenas 2% da população norte-americana está envolvida com a agricultura. Que boas soluções podem vir de 2% de qualquer população? Olhando mundo afora, 50% da população africana tem menos de 18 anos. E 80% não querem ser agricultores. A agricultura é difícil. A vida de um pequeno agricultor é miserável. Então, vão para a cidade. Na Índia, famílias de agricultores não têm acesso a serviços básicos: mais suicídios de agricultores este ano e nos dez anos anteriores. Incomoda falar disso. Para onde estão indo? Para a cidade. Não há jovens, e todos indo embora. Então, como construir uma plataforma que inspire a juventude?

"Esta é minha fazenda digital. Alguns anos atrás, fui a lojas de material de construção e comecei a inventar", explica Harper

Consegui fazê-las sobreviver. E construí um dos relacionamentos mais íntimos que já tive na vida, pois estava aprendendo a linguagem das plantas. Eu queria ampliar o projeto, aí me disseram: "Divirta-se, garoto! Eis uma sala de eletrônicos velhos que ninguém quer. O que você consegue fazer?"

Com minha equipe, construímos uma fazenda no laboratório de mídia, um lugar historicamente famoso por não ter nada a ver com biologia, mas tudo a ver com vida digital. Dentro desses 5,5 m², produzimos, uma vez por mês, alimentos para cerca de 300 pessoas. Não era muita coisa, mas havia muita tecnologia interessante lá dentro. E qual a coisa mais interessante? Lindas raízes brancas, cores verde-escuras e uma colheita mensal. É uma lanchonete nova? Uma nova forma de varejo? Um novo mercado? Uma coisa posso afirmar com certeza: foi a primeira vez que alguém no laboratório de mídia extraiu as raízes de algo.

Sempre compramos a salada em sacos, o que não tem nenhum problema. Mas o que acontece quando juntamos um especialista em processamento gráfico, um analista de dados e um roboticista, arrancando raízes e pensando: "Ah, sei alguma coisa sobre isso e poderia fazer isso acontecer, quero tentar".

Nesse processo, levávamos as plantas para fora, depois trazíamos algumas de volta, pois, quando as cultivamos, não as jogamos fora; tornam-se especiais para nós. Desenvolvi um estranho paladar, pelo receio de deixar alguém comer algo que não tenha provado primeiro, pois quero que seja bom. Como alface todos os dias e posso dizer o PH de uma alface dentro de .1.

Tipo: "Não, essa é 6.1; não, não, não dá para comê-la hoje".

A alface naquele dia estava superdoce. E estava assim porque a planta estava estressada, e isso gerou nela uma reação química para se proteger: "Não vou morrer!" E as plantas "que não vão morrer" parecem mais doces para mim. Tecnólogos voltando à fisiologia das plantas.

Aí, achamos que outras pessoas deveriam tentar também. Queríamos ver o que elas conseguiam criar. Daí, projetamos um laboratório que pudesse ser despachado, e então o construímos.

Se vocês conhecem genoma ou genética, este é o fenoma, certo? Os fenômenos. Quando dizemos: "Gosto dos morangos do México", gostamos na verdade dos morangos do clima que produziu a expressão que gostamos. Assim, ao codificarmos o clima: um tanto de CO2 mais outro tanto de O2 criam uma receita, estaremos codificando a expressão daquela planta, a sua nutrição, tamanho, forma, cor e textura. Precisamos de dados, por isso colocamos sensores para registrarem tudo. Já nas plantas que temos em casa, olhamos para elas e pensamos supertristes: "Por que você está morrendo? Fale comigo".

Agricultores desenvolvem um olhar premonitório por volta dos 60 a 70 anos de idade. Ao ver uma planta morrendo, eles conseguem dizer se é deficiência de nitrogênio ou cálcio, ou se está faltando umidade. Esse olhar especial não está mais sendo transmitido.

É o olhar de um agricultor na "nuvem". Fazemos gráficos de tendência ao longo do tempo. Comparamos esses dados com as plantas individuais. Vejam, por endereço IP, os brócolis do laboratório naquele dia.

Temos brócolis com endereço IP

Como se não bastasse, pode-se clicar e ver o perfil de cada planta. E consegue-se baixar o progresso de cada planta, mas não do jeito como pensam, não apenas quando está pronta. Quando ela vai alcançar a nutrição de que preciso? Quando vai adquirir o gosto que desejo? Está recebendo água demais? Sol demais? Alertas. Ela pode falar comigo, é um diálogo, temos uma língua.

Vejo isso como o primeiro usuário do Facebook das plantas, certo? É o perfil de uma planta, e ela vai começar a adicionar amigos.

Não é brincadeira: vai fazer amizade com outras plantas que usam menos nitrogênio, mais fósforo, menos potássio. Vamos aprender sobre uma complexidade que, hoje, só em sonho. E elas podem nos adicionar ou não, dependendo de como agirmos.

Estamos testando todo tipo de coisa. A aeroponia foi desenvolvida pela NASA para a estação espacial Mir, para reduzir a quantidade de água enviada ao espaço. E o que ela faz é dar à planta exatamente o que ela quer: água, minerais e oxigênio. As raízes são menos complicadas: quando damos isso a elas, conseguimos essa expressão incrível. É como se a planta tivesse dois corações. E, por ter dois corações, ela cresce quatro ou cinco vezes mais depressa. É o ambiente perfeito. Foi um longo caminho até tecnologia e sementes para um mundo adverso, e vamos continuar a fazer isso, mas vamos ter uma nova ferramenta: o ambiente perfeito.

Cultivamos todo tipo de coisa. Esses tomates estavam fora da produção comercial há 150 anos. Vocês sabiam que temos bancos de sementes raras e antigas? Bancos de sementes. É incrível. Eles têm germoplasma vivo e coisas que vocês nunca comeram. Sou a única pessoa nesta sala que comeu esse tipo de tomate. O problema é que foi num molho e, como não sabemos cozinhar, o molho de tomate não estava muito bom. Mas fizemos coisas com proteínas, cultivamos todo tipo de coisas. Cultivamos humanos...

Criamos uma interface que se parece com um jogo: é um ambiente 3D onde conseguem acessar de qualquer lugar com um smartphone, um tablet. Têm diversas partes dos robôs, os materiais, os sensores. Selecionam receitas criadas por outras crianças de qualquer lugar do mundo. Eles selecionam e ativam aquela receita, plantam uma muda. Enquanto a planta cresce, fazem mudanças, questionam: "Por que ela precisa de CO2? CO2 não é ruim? Ele mata as pessoas". Aumentam o CO2, a planta morre. Ou diminuem o CO2, a planta fica bem. Colhem a planta, e está criada uma nova receita digital.

É um design, desenvolvimento e processo de exploração interativos. Eles conseguem baixar todos os dados sobre a nova planta que desenvolveram, ou a nova receita digital: o que fizeram com ela, se foi melhor ou pior. Pensem nisso como pequenos núcleos de processamento. Vamos aprender muito. Assim, os dados são todos abertos, está tudo on-line. Apesar de ser difícil, tentem fazer em casa seu computador de alimentos. Estamos no começo, mas está tudo lá. É muito importante para mim manter tudo isso aberto e acessível.

E se... construíssemos uma fazenda digital? Uma fazenda digital mundial. E se pudéssemos pegar uma maçã, e de algum modo digitalizá-la, enviá-la em forma de partículas pelo ar e reconstituí-la do outro lado?, questiona pesquisador-chefe e diretor da Open Agriculture Initiative (OpenAG) do MIT Media Lab

A realidade é que estamos apenas começando num tempo de mudança para a sociedade também. Queríamos mais alimento e mais barato. Agora, queremos qualidade, um alimento que respeite o meio ambiente.

O mundo de hoje: computadores de alimentos pessoais, servidores de alimentos e centros de dados de alimentos rodando o fenoma aberto. Pensem no genoma aberto, mas com receitinhas climáticas, como a Wikipédia, que vocês podem baixar, ativar e cultivar.

Como fica a cara do mundo?

Lembram-se do mundo conectado por linhas? Agora temos pontos luminosos. Estamos enviando informações sobre os alimentos, em vez dos alimentos. Isso não é fantasia minha: já estamos usando em todos esses lugares. Computadores e servidores de alimentos, em breve centros de dados de alimentos, unindo pessoas para compartilharem informações.

O futuro dos alimentos não tem a ver com lutar contra o que está errado aqui. Sabemos o que há de errado com isso. O futuro dos alimentos é conectar o próximo bilhão de agricultores e empoderá-los com uma plataforma para que perguntem e respondam: "E se?"

Um pouco mais sobre Caleb Harper

O que sabemos sobre a comida que comemos? E se houvesse democracia climática? Estas e outras questões estão presentes  no trabalho de Caleb Harper e seus colegas, enquanto exploram o futuro dos sistemas alimentares. Ele é o investigador principal e diretor da Open Agriculture Initiative (OpenAG) no MIT Media Lab. Sob sua orientação, um grupo diversificado de engenheiros, arquitetos, urbanistas, economistas e cientistas de plantas (o que ele chama de "grupo antidisciplinar") está desenvolvendo hardware, software e dados agrícolas de código aberto comum, com o objetivo de criar um sistema alimentar transparente e colaborativo.

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