Que esperar da tecnologia brasileira nesta década?

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patrick_hruby.jpg*Por Patrick Hruby
02/03/2020 - O fim de uma década é sempre um momento de reflexão. Todo prognosticador que se preza sabe que olhar para trás é o primeiro passo para prever o que vem pela frente.

No Brasil, os anos 2010 foram marcados no ambiente tecnológico pela impressionante popularização dos smartphones. Dados da FGV-SP indicam que hoje temos 230 milhões de smartphones ativos no Brasil, mais do que um aparelho por brasileiro. Essa mudança estrutural por sua vez gerou três grandes consequências que seguirão reverberando nos próximos anos. A primeira foi o aumento do acesso à internet, principalmente nas faixas de renda mais baixas. Esse acesso possibilitou o segundo movimento, a proliferação de negócios online como fintechs e e-commerces, e a reação dos negócios offline (como bancos e varejistas) para defender seus mercados. Por fim, e mais recentemente, observamos a disrupção de negócios tradicionais e analógicos (transporte, hospedagem, alimentação) por soluções digitais que conectam a oferta offline ao consumidor online (Uber, Airbnb, iFood).

E o que podemos esperar da próxima década? Apesar da máxima do físico Niels Bohr de que “previsões são difíceis especialmente sobre o futuro”, estou confiante que dois grandes movimentos irão marcar o setor de tecnologia brasileiro.

O primeiro é a disseminação da inteligência artificial (IA). Nos Estados Unidos, mas também na China, já observamos o impacto da IA nos mais diversos negócios, com reflexo inclusive no dia a dia dos brasileiros. Os algoritmos da IA estão por trás da recomendação do filme que você deveria assistir no Netflix, da música que você deveria escutar no Spotify, ou da postagem que você deveria ver no Instagram. Essa hiperpersonalização só é possível porque algoritmos analisam as ações de milhões de usuários e usam esses dados para prever o que cada um de nós vai querer consumir.

No Brasil ainda estamos na infância desse movimento, mas já vemos a IA gerando resultados concretos de melhora de eficiência de diversos negócios como, por exemplo, o iFood que usa algoritmos tanto para selecionar o entregador como também para sugerir a melhor rota de coleta do restaurante e entrega na residência. Isso aumenta a produtividade (e renda) do entregador e proporciona uma melhor experiência ao consumidor final (comida em casa mais rápido).

Como todas as grandes mudanças tecnológicas que já passamos, a IA certamente impactará na lógica trabalhista que conhecemos hoje. Não acredito nas previsões apocalípticas do fim do emprego e dominância das máquinas, mas se o passado é nosso guia, sei que cargos e funções irão mudar. Hoje já observamos essa mudança na profunda escassez de mão de obra qualificada em tecnologia de computação (e os altos salários ofertados aos recém formados nessa área). Para enfrentar esse déficit, empresas de tecnologia no Brasil estão investindo em parcerias com universidades e capacitações internas de funcionários. Para o Brasil não ficar para trás é importante que o poder público e a iniciativa privada trabalhem juntos para mudar esse cenário.

A segunda grande tendência será o aumento do capital de risco para as startups. Esse movimento que acontece há décadas nos Estados Unidos (principalmente no Vale do Silício), há alguns anos na China e mais recentemente na Índia, finalmente chega ao Brasil com força total. Estima-se que o Brasil teve 2,5 bilhões de dólares em rodadas de investimento em 2019, quase o dobro do ano anterior, segundo uma pesquisa da empresa de inteligência de startups Distrito. Dos onze unicórnios brasileiros, cinco atingiram esse status em 2019 e um já em 2020, mostrando um grande ponto de virada para o país, que tem potencial para muitos mais.

Com mais acesso a financiamento, empreender se tornará uma alternativa cada vez mais atraente tanto para jovens quanto para profissionais experientes. Com mais empreendedores, mais ideias sairão do papel e se tornarão negócios e, consequentemente, empregos. Isso também irá resultar em um aumento da concorrência, pois capital de risco não será um diferencial competitivo como foi no passado. Ser o primeiro com uma boa ideia não garantirá sucesso. Execução, disciplina financeira e rentabilidade operacional passarão a fazer parte do mapa de sucesso das startups.

Mas e os carros voadores (ou pelo menos autônomos)? Me prometeram viagens espaciais e colônias em Marte! Como todo empreendedor, eu sou um otimista com os avanços da tecnologia. Elas virão, pode ter certeza, o problema é que o hype chega muito antes da realidade. Mas, enquanto isso, se a sua empresa não tem uma estratégia para IA, eu não estaria otimista para o futuro do seu negócio.

*Executive in Residence no Grupo Movile, Patrick Hruby tem 15 anos de experiência em empresas do Vale do Silício, sendo sete no Google e os últimos sete no Facebook, onde ocupava o cargo de vice-presidente de vendas de pequenas e médias empresas para América Latina. O executivo é formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e possui MBA em Finanças em Yale.

*Patrick Hruby é Executive in Residence do Grupo Movile

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