NYT dá destaque à catástrofe de Brumadinho

brumadinho_1.jpgPor Ethevaldo Siqueira
11/02/2019 - Com o título de "Onda gigante de lama", o New York Times publicou no dia 10 de fevereiro, uma grande reportagem sobre Brumadinho, inclusive com o vídeo impressionante da maré de lama que se desloca e vai engolfando tudo.

Veja o parágrafo de abertura da reportagem: "Luiz de Castro estava instalando lâmpadas no complexo de minas do Brasil no mês passado, quando ouviu um grande estouro cortar a atmosfera. Ele achou que era apenas o barulho de um pneu de caminhão que estourava, mas seu amigo conhecia aquilo melhor do que ele disse:

"Não, não é isso" – disse o amigo. "Corra!"

Era o rompimento de uma barragem da mineradora Vale (a maior do mundo em minério de ferro), que entrou em colapso e matou mais de 150 pessoas. Agora, o Brasil, ansiosamente, se preocupa com dúzias de outras barragens (perigosas) como aquela.

O dilúvio de lama tóxica se estendeu por cinco quilômetros, esmagando casas, escritórios e pessoas - uma tragédia, mas dificilmente uma surpresa, dizem os especialistas.

Há 88 barragens de mineração no Brasil construídas como a que falhou - enormes reservatórios de lixo de mineração, retidos por pouco mais que muros de areia e limo. E todas, exceto quatro das barragens, foram classificadas pelo governo como igualmente vulneráveis ​​ou piores.

Ainda mais alarmante, pelo menos 28 delas ficam diretamente em cima de cidades ou vilas, com mais de 100 mil pessoas vivendo em áreas extremamente perigosas, segundo estimativa do The New York Times.

No desastre do mês passado, todos os elementos para a catástrofe estavam lá: um reservatório de lixo de mineração construído a baixo custo, perto de uma pequena cidade. Avisos negligenciados de problemas estruturais, que poderiam levar a um colapso. Equipamento de monitoramento que não funcionou.

E talvez acima de tudo, um país onde uma indústria de mineração poderosa, tenha estado livre para agir mais ou menos sem controle.

O dilúvio de lama tóxica se estendeu por cinco quilômetros, esmagando casas, escritórios e pessoas / Antonio Lacerda/EPA, via Shutterstock

A ameaça de barragens de mineração mal construídas no Brasil vai muito além de uma empresa. A última falha mortal - a segunda no Brasil em três anos - deixou claro que nem o setor de mineração, nem os reguladores, têm a situação sob controle.

A solidez da lama

Uma das estruturas mais estranhas conhecidas pela engenharia - e, a menos que seja projetada, construída e monitorada com grande atenção aos detalhes, segue sendo uma das mais assustadoras.

Barragens como a que desabou em Brumadinho são, em essência, lagos de lama espessa semi-endurecida, compostas de água e dos sólidos subprodutos da mineração de minério, que são conhecidos como rejeitos.

Nos dias após a ruptura, a Vale disse que daria às famílias de cada vítima 100.000 reais, ou US $ 27.000, independentemente de quaisquer acordos legais.

Governos estaduais e nacionais rapidamente exigiram regulamentações mais rigorosas, mas, como os especialistas apontam, a indignação após o colapso da barragem de Mariana, de nada adiantou para melhorar o marco regulatório.

A Vale é a principal fonte de renda para as 37 mil pessoas que vivem em Brumadinho / Antonio Lacerda/EPA, via Shutterstock 

“Depois de Mariana, o sistema ficou mais flexível, facilitando o tráfego de influência dentro do sistema de licenciamento”, disse Klemens Laschefski, professor da Universidade Federal de Minas Gerais que participa das reuniões do conselho. "Já participei de 40 reuniões sobre projetos prioritários - nenhum foi rejeitado", disse ele.

Ademir Caricati, um líder comunitário em um bairro onde cerca de 40 casas foram destruídas, disse que funcionários da Vale disseram aos moradores no ano passado que a represa representa pouco perigo.

Os funcionários até ofereciam um tipo estranho de segurança, apontando que os escritórios administrativos da mina ficavam logo abaixo da represa.

"Seríamos os primeiros a morrer", disse um deles.

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