No mercado de petróleo não tem doutor

jose_roberto_mendonca_barros.jpg*Por José Roberto Mendonça de Barros
29/01/2019 - Em 1964, eu fazia o curso de Economia da FEA-USP, quando tive de começar a cuidar de uma fazenda de café na região de Maringá (PR). A tecnologia mais simples da época permitia tocar a propriedade com viagens a cada 45 dias, sem que tivesse no local nenhuma estrutura administrativa mais pesada. Hoje, isso seria muito difícil.

Essa experiência, que durou 20 anos, foi complementada por outra: durante 1965 trabalhei, com Guilherme Silva Dias, como assistente de pesquisa, num projeto, que virou clássico, onde o professor Antonio Delfim Netto mostrou que a política de valorização dos preços do café dos anos 50 havia resultado numa elevação da concorrência, de sorte que "blends" de cafés robusta africano e arábica suaves da Colômbia (na base 75/25) reproduziam vantajosamente o produto brasileiro, o que acarretou uma perda progressiva de mercado. Finalmente, uma ligação de alguns anos com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) complementou meus horizontes do que hoje é conhecido como agronegócio.

Mas, em 1965, ainda era um aprendiz e, com a colheita em andamento, tive minha primeira experiência de vender café. Nervoso, verde aos 21 anos, com medo de fazer bobagem, dependia do suporte da Cooperativa dos Cafeicultores de Mandaguari (Cocari), cujo presidente era o saudoso Orípes Rodrigues Gomes. Na décima vez em que lhe perguntei se era bom vender naquele momento, tive a primeira grande lição de economia na prática. Orípes me disse algo do tipo: "Menino, eu acho que é hora de vender, mas lembre-se que no mercado de café não tem doutor".

Isso porque, como se aprende com o tempo, o futuro é impenetrável e espesso. Por melhores que sejam os dados e os modelos de previsão, por mais experiência que se tenha, sempre ocorrem choques inesperados, mudanças súbitas de tendência e outras crises que alteram o rumo projetado.

Essa história do doutor me vem à mente a propósito do que ocorreu no mercado de petróleo recentemente. Em meados de 2017, o petróleo tipo Brent atingiu a cotação de US$ 44 por barril, número baixo quando se leva em conta que o mundo estava crescendo bem. A Opep e a Rússia já tinham colocado em prática uma política de redução da produção desde janeiro. Surpreendentemente, o cumprimento do entendimento por parte dos países-membros da organização foi total, o que nunca foi o padrão dos acordos da Opep. Com isso, os estoques excedentes foram sendo consumidos, de sorte que ao fim de 2017 os preços já estavam na faixa de US$ 65 por barril, resultado mais do que satisfatório para os produtores.

Já em 2018, os altistas tiveram uma ajuda surpreendente e inestimável: a produção venezuelana colapsou, em mais um importante capítulo na longa crise daquele país. Nos primeiros nove meses do ano, mais de 750 mil barris de petróleo por dia deixaram de ser bombeados, levando as cotações para a faixa de US$ 80.

Nesse momento, praticamente todos os bancos, tradings e analistas ao redor do mundo passaram a prever que o preço do petróleo iria bater os US$ 100 por barril, o que se transformou em grandes manchetes. É aqui que entra o título deste artigo, uma vez que menos de 90 dias depois, o óleo bateu US$ 50, numa queda épica que pulverizou todas as projeções anteriores.

O que detonou a reversão foi a aceitação, pelos mercados, de que a economia global entraria numa fase de desaceleração econômica, que prevalece até hoje. Mais que o preço, o que chama a atenção nesse período foi a violência na queda. Isso tem tudo a ver com o mercado de derivativos associado às cotações do produto.

A volatilidade dos mercados foi ensinando aos produtores de petróleo a travar seus resultados, comprando opções de venda, quando as cotações atingem níveis altos, e, especialmente, se existirem dúvidas quanto à sua manutenção, o que ocorreu neste caso pela revisão do futuro do crescimento global.

Assim, produtores de petróleo estavam comprados e agentes do mercado financeiro vendidos. Em mercados desse tipo, a reversão das expectativas leva à liquidação das opções a qualquer preço, o que faz o mercado afundar. Depois de zeradas as posições, a calma volta e os preços podem até subir um pouco, o que também ocorreu nesse caso. Haja coração, dinheiro para não quebrar e a dolorosa lembrança que no mercado não tem doutor.

*O artigo escrito por José Roberto Mendonça de Barros e publicado no jornal O Estado de São Paulo de 27/01/2019.

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