Afinal, o que define a Logística 4.0 no Brasil?

angela_telles_totvs_2.jpg*Por Angela Gheller Telles
13/12/2018 - Em abril de 2013, na prestigiada Feira de Hannover, o termo Indústria 4.0 foi usado pela primeira vez – especialistas alemães apresentaram os elementos que vieram a compor o que se entendeu pela Quarta Revolução Industrial. A Logística 4.0, nosso tema central e discussão muito mais recente, não teve o seu momento "pedra fundamental", mas é amplamente conhecida no mercado. A evolução desse conceito foi impulsionada pelas mudanças promovidas pela Indústria 4.0, justamente por ser um elo de ligação de toda a cadeia logística.

Mas, afinal, o que define a Logística 4.0? É um ideal que pode ser entendido como a reestruturação dos processos e atividades logísticas, em atenção às mudanças promovidas pela transformação digital nos modelos de negócios em geral, por meio da adoção de tecnologias voltadas à conectividade e ao uso inteligente e preditivo da informação.

E, ao contrário do que se possa pensar, toda essa movimentação em busca de uma cadeia digital interconectada, não foi impulsionada pelo desejo das empresas por inovação. Na verdade, foi uma reação às mudanças de consumo e demandas, que exigiram uma quebra na linearidade da cadeia tradicional, tão pouco flexível. O aumento contínuo nas compras realizadas via e-commerce e a tendência crescente das indústrias estruturarem canais de venda direto com os seus clientes mudaram os desafios de intralogística, distribuição e logística reversa das empresas. Passaram a ser necessárias novas formas de se realizar os processos, com maior flexibilidade, agilidade e visibilidade.

Chegamos, agora, na aplicação dessas mudanças. Mas, antes, te convido a fazer uma nova comparação ao conceito alemão: quando se fala em Indústria 4.0, muita gente imagina uma fábrica com dezenas de robôs, esteiras gigantes e automação do começo ao fim da produção. Na Logística 4.0, o senso comum não é muito diferente em relação à necessidade de tecnologias extremamente complexas (e caras). E, aqui, mora um verdadeiro mito – não se pratica a Logística 4.0 assim, as tecnologias não representam os fins, mas os meios para se chegar aos objetivos. Estamos falando de uma jornada, um passo a passo, com a adoção de soluções escaláveis.

São iniciativas baseadas no uso inteligente dos dados gerados na cadeia de valor da logística, realidades que já podem (e devem) ser utilizadas a favor dos negócios. Como resultado, ganha-se em previsibilidade de demandas, nivelamento de estoques, análises preditivas de manutenção de frota e otimização de toda a malha.

Os novos conceitos logísticos estão mudando a forma como os serviços são executados e cobrados. Aos poucos, alguns pontos começam a sair da esfera das tendências e a migrar para a realidade, como, por exemplo, o cross borders (ou, além das fronteiras) e o same-day (entrega no mesmo dia). As plataformas cross borders fazem a conexão entre diversos agentes da cadeia (prestadores de serviço, pessoas jurídicas e até físicas) e ainda possibilitam a eliminação de intermediários. Por outro lado, cada vez mais pressionadas por prazos, o diferencial pode estar em oferecer ao cliente o same-day delivery (entrega no mesmo dia da compra), o que impacta diretamente nos processos, plano de distribuição e uso de tecnologias pelas empresas logísticas.

E para falar mais sobre tendências, a movimentação dos produtos de um ponto a outro está em plena transformação. Entregas por meio de drones já são realidade em alguns países e veículos autônomos devem ser usados em um futuro não muito distante. A tecnologia de impressão 3D pode causar uma ruptura ainda maior, eliminando a necessidade de movimentação física – peças de reposição, por exemplo, podem ser impressas in loco. A adesão ao modelo de crowdsourcing, ao invés de fornecedores tradicionais, potencializado por bases digitais, tem enorme força para modificar alguns modelos de negócios logísticos por completo. Indo além, plataformas para contratação de transporte, similares ao modelo da Uber, e marketplaces, que excluem os intermediários da cadeia ou trabalham com o conceito de leilão reverso, são possibilidades reais – e muito do que a quecerá a Logística 4.0 no Brasil, nos próximos anos.

Mas qual a nossa realidade, hoje? Olhando o nosso mercado, formado na sua maioria por pequenas e médias empresas logísticas, ainda existe uma curva de maturidade a ser percorrida, para a adoção de soluções voltadas à Logística 4.0. É preciso criar uma agenda de inovação e acreditar que isso não é algo "do futuro". Entender que se você não fizer, o concorrente vai fazer e que, talvez, daqui a algum tempo isso nem seja mais um diferencial competitivo.

A verdade é que estamos falando de uma mudança que, além de tecnológica, também é cultural, passando por pessoas, treinamento e capacitação, para transformar e preparar todos, para que possam usufruir o melhor dessas novidades. E, para encerrar, o mito de que isso é só para as grandes empresas, deve morrer de vez! Afinal, já há inúmeras ofertas e modalidades que democratizaram as tecnologias, do sistema de gestão à Inteligência Artificial e IoT.

E você, vai viver no passado ou fazer das tendências realidades para os seus negócios?

*Angela Gheller Telles é diretora dos Segmentos de Manufatura, Logística e Agroindústria da TOTVS

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Algar Tech inaugura dois espaços de inovação

algar_tech.jpg11/12/2018 - A Algar Tech, multinacional brasileira especializada em gestão do relacionamento com cliente, ambiente de tecnologia e serviços de telecom, inaugurou recentemente dois espaços de inovação – um na sede em Uberlândia e outro no escritório da empresa em São Paulo. O primeiro, que ganhou o nome de Digital Garage, é uma área de 30 m² que contém toda a infraestrutura necessária para realização de sessões de Design Thinking com pequenos grupos e convida as pessoas para a inovação disruptiva.

Já o outro, localizado no bairro da República, é o terceiro Innovation Lab da empresa. Ele se soma ao Innovation Lab de Uberlândia, primeiro espaço inaugurado em outubro de 2017, e ao Innovation Lab localizado no dentro do inovaBRA, espaço de inovação do Bradesco, na capital paulista.

Todas estas estruturas fazem parte dos processos de inovação, empreendedorismo e transformação digital da Algar Tech. E servem também para incorporar tecnologias como inteligência artificial, IoT, robótica, além de analytics e uso de plataformas digitais.

Os espaços têm uso liberado tanto para associados da Algar Tech quanto para clientes, startups e parceiros de iniciativas de inovação. Eles podem também usufruir de mentorias e co-criações, assim como utilizar o local como base de parcerias a serem desenvolvidas com a empresa.

“Consideramos a inovação um pilar estratégico da companhia e a implantação de espaços como os que inauguramos nos últimos meses estimula ainda mais o pensamento colaborativo e a atitude inovadora. Já temos vários cases construídos junto aos clientes, alguns com soluções proprietárias, outros em parceria com membros de um amplo ecossistema de inovação, que nos permite prover soluções modernas e sob medida para cada necessidade de negócio identificada.”, afirma Marco Aurélio Matos, diretor de Transformação Digital da Algar Tech.

Parques tecnológicos, universidades e startups interessadas em saber mais sobre parcerias com o Innovation Lab, podem acessar a página de inovação da companhia e falar com a equipe responsável pela curadoria destes espaços:  MailScanner detectou uma possível tentativa de fraude de "na01.safelinks.protection.outlook.com" https://algartech.com/transformacao-digital/

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IA, IoT e o poder dos dados: o futuro é mesmo agora

lorenzo_mendoza_por_que_nao.jpg*Por Lorenzo Mendoza
11/12/2018 - Novas tecnologias digitais já se incorporaram em todas as áreas e operações das marcas.  O uso de tecnologias emergentes como inteligência artificial (IA), machine learning, internet das coisas (IoT) e impressão 3D têm promovido um desempenho e um crescimento significativo para as empresas. Se mais da metade da população está conectada é necessário desenvolver soluções que atendam às necessidades do cliente por meio da tecnologia, mas não basta só ser tecnológico, é preciso proporcionar as melhores experiências.

No último mês, tive a oportunidade de participar de uma das maiores conferências de inovação do mundo, o Web Summit 2018, em Lisboa, e pude acompanhar de perto as tendências para os próximos anos. Em 2019, pela primeira vez, mais da metade do mundo vai estar online, e com esse ritmo acelerado, temas como confiança, privacidade e inovação seguem em evidência mais forte no mundo dos negócios, no qual as empresas precisam garantir segurança da informação, privacidade dos dados e ainda por cima, experiências positivas dos clientes.  Essa preocupação vem crescendo junto com a chegada massiva das startups que nos proporcionam inúmeros serviços em diversas áreas, como saúde, finanças, meio ambiente e varejo e a quem pertencem tantas das nossas informações. “Dados são como petróleo”, disse o CEO da Samsung, “Sempre existiu, mas passou a ter valor quando aprendemos a refiná-lo. Inteligência Artificial é o refinamento do Big Data”.

Pois é, a Inteligência Artificial foi tema recorrente no Web Summit. Algo antes visto como ficção científica, hoje é realidade e mais próxima ainda do dia a dia das empresas e de seus produtos digitais. Durante o evento, vi mais de 180 startups focadas no desenvolvimento de AI & Machine Learning.  O assunto é tão quente que houve um painel inteiro dedicado a discutir quando as máquinas irão dominar o mundo. Ou seja, estamos vivendo o momento que víamos nas telas do cinema.

Toda essa inovação no mundo digital é feita por pessoas, que vão determinar o alcance do poder dos seus dados, o alcance e o poder das máquinas e quais os serviços que serão substituídos por elas. O desafio dos governos e das empresas é assegurar que o mundo tecnológico seja o mais transparente e seguro possível.

Pegar todo esse conhecimento e aplicar na digitalização das marcas é o desafio dos desenvolvedores. Inovar por meio de produtos digitais, desenvolver soluções para atender todas as demandas dos clientes. Sempre tendo como foco segurança e a melhor experiência possível para os usuários. Depois de ir embora do Web Summit em Lisboa, saio com a certeza mais do que real de que o futuro é mesmo agora.

*Lorenzo Mendonza é diretor da PorQueNão?

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Como a inovação pode contribuir com as organizações

guilherme_rodrigues_asg.jpg*Por Guilherme Rodrigues
10/12/2018 - Nos últimos anos, você deve ter visto dezenas de casos de empresas que mudaram suas histórias a partir de grandes processos de inovação. No passado, as mudanças exigiam investimentos financeiros significativos que estavam fora do alcance de muitas organizações. No entanto, com o avanço da Era Digital, a inovação hoje é possível e está ao alcance de qualquer orçamento.

As organizações podem inovar e aprimorar os processos de maneira pragmática ao adotar uma estratégia bem definida. Neste caso, os CIOs (Chiefs Information Officer) podem melhorar suas organizações, valorizando seus investimentos e ações diárias, sem abrir mão da economia e dos objetivos estratégicos a curto prazo de suas operações. Nesse contexto, a inovação pragmática é uma opção fundamental para as organizações, ao permitir a adoção de processos orientados à aplicação de tecnologias e recursos que agreguem real valor aos negócios.

Em linhas gerais, a inovação pragmática é uma estratégia que busca identificar e propor oportunidades de transformação tecnológica de forma assertiva. Essa abordagem tem como objetivo garantir que as empresas apliquem seus maiores esforços na adoção de ferramentas, serviços e recursos mais alinhados aos objetivos de negócios, gerando valor aos usuários, e em condições financeiras e operacionais mais adequadas à realidade das operações.

Para essa proposta ser eficiente, no entanto, os CIOs precisam entender que a inovação não vem apenas por meio da aplicação de conceitos disruptivos e altamente transformadores. Os líderes de TI podem começar avaliando suas estruturas de tecnologia, mapeando de que forma contribuem para o negócio da companhia e investigando se a organização está otimizando seus investimentos em soluções que realmente otimiza os processos.           

Um ponto essencial para o sucesso das estratégias de inovação pragmática é a aplicação de serviços e ferramentas que permitam o uso de dados gerados pelas operações. Os dados chamam atenção. De acordo com uma pesquisa da MailScanner detectou uma possível tentativa de fraude de "research.wpcarey.asu.edu" W.P. Carey School of Business da Arizona State University, o volume global de dados de negócios duplica a cada 14 meses. Além disso, um relatório recente da Interana mostra que 70% das empresas ainda não extraem qualquer tipo de ideia dessas informações, perdendo oportunidades para operarem de forma ainda mais estratégica. Nesse cenário, as organizações que mudarem seus processos e aproveitarem os dados como insights para a inovação de seus processos certamente sairão na frente para economizar dinheiro e tempo, aumentando as chances de sucesso no futuro.

Esse processo depende de soluções que apresentem uma visão abrangente e completa das organizações, mostrando quais áreas precisam de inovação e quais são os ganhos necessários para gerar resultados realmente positivos. Com o uso de ferramentas modernas para gerenciamento de dados, as companhias podem localizar, gerenciar e entender informações de qualquer tipo. A capacidade analítica trazida pela tecnologia é imprescindível para que as empresas respondam questões importantes sobre os reais resultados das inovações implantadas.

Além disso, ao propor uma abordagem moderna de gestão de dados, as companhias estarão mais preparadas para suportar as demandas para o futuro e para o crescimento das demandas digitais. Na prática, o monitoramento inteligente de informações permite que os líderes de TI definam com antecedência quais tecnologias e serviços serão essenciais para os próximos passos de suas equipes e iniciativas, bem como para avaliar a performance da concorrência e as demandas do público, entre outros. Em suma, essas aplicações permitem uma visão assertiva, baseada em dados, com indicadores claros e em sintonia com a estratégia de negócios das companhias.

Ao adotar o pensamento pragmático e ferramentas de análise de informações modernas, os gestores ganham a chance de modernizar suas abordagens de inovação, endereçando seus esforços para iniciativas que permitam o aperfeiçoamento dos sistemas, melhorando a performance dos times de TI e gerando ganhos efetivos em resultados para suas companhias.

Com a inovação, os líderes ganham mais tempo e recursos para pensarem em projetos maiores, com maior fôlego para aplicar novidades mais visionárias e disruptivas. Assim, os CIOs podem equilibrar a balança entre a inovação de efeito imediato e as aplicações que visam o futuro em longo prazo.

O olhar estratégico dos dados tem tudo para ajudar as companhias a inovarem de uma maneira mais objetiva, consciente e rentável. Para isso, é importante que os gestores e líderes entendam melhor necessidades, agregando mais inteligência e assertividade à análise de informações que são geradas a cada minuto por suas organizações. Afinal de contas, a verdadeira inovação é aquela que transforma as empresas, aproveitando e ampliando o potencial das operações para o atingimento dos objetivos de negócios. O momento para a mudança é agora.

*Por Guilherme Rodrigues, Gerente de Contas Estratégicas da ASG Technologies Group, Inc

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Como é possível evitar desastres em pontes e viadutos?

viaduto_max-chen_unsp.jpg*Por Pedro Soethe
04/12/2018 - Em 2018, fomos impactados com dois casos bem peculiares em viadutos no País. O primeiro foi em Brasília, no Eixão Sul, que caiu logo no começo do ano, mais precisamente em fevereiro, causando ainda grande transtorno, já que até o momento continua sendo reconstruído. E o custo? Já ultrapassou 10 milhões de reais.

Agora, mais recentemente, foi a vez do viaduto do Jaguaré na Marginal Pinheiros, em São Paulo, sofrer com a falta de manutenção e transformar a cidade em um verdadeiro caos sem data para terminar.  Até o momento não existe prazo para resolução e muito menos o custo, mas com certeza terá número parecido ou até maior que o primeiro exemplo.

Então como seria possível evitar estes prejuízos milionários? Existem maneiras tradicionais de se fazer a manutenção preventiva para esses tipos de estrutura, entre elas, levantar pessoalmente das condições, executar ensaios de qualidade para tentar identificar possíveis patologias. Todos os dados encontrados e analisados devem então ser confrontados com o projeto original para tentar localizar inconsistências ou alterações.

Mas é aí que começam todos os problemas: primeiro temos a questão do tempo para fazer todos estes levantamentos e ensaios, segundo os projetos originais quase todos já foram perdidos. Mesmo quando ainda são feitos dessa maneira, os dados ainda são analógicos, geralmente em papéis, que muitas vezes não são armazenados ou anexados aos projetos originais, mesmo porque já se perderam.

Imagine, hoje, alguém chegar para o prefeito de uma grande cidade e perguntar quais são os três maiores problemas nas suas pontes/viadutos? Poucos iriam saber exatamente a resposta, aposto que seriam “estão com rachaduras” ou “estão com problemas diversos”.

Aqui começa a entrar a tecnologia. Hoje temos ferramentas tecnológicas que podem fazer boa parte do trabalho e sistematizar o projeto de verificação, análise, simulação de cenários e até predição de problemas - com alguns cliques no mouse é possível ter um relatório completo das principais alterações detectadas no período de um ano, um mês ou uma semana, por exemplo.

Primeiro passo é a criação do gêmeo digital da estrutura, isto é totalmente possível, hoje esse processo pode ser feito por meio de verificações a laser, drones, até levantamentos tradicionais unidos, que podem levar para um computador a exata imagem tridimensional com todas as características geométricas totalmente mesuráveis e verificais.

Além disto, usando um software é possível remodelar a mesma estrutura com todas as suas características, não só geométricas, mas também identificar qual é o tipo de material dos múltiplos componentes, sua resistência, a pressão, a torsão, a abrasão, a lixiviação, etc. Qual a quantidade de ferragem, drenagem, o tipo de pavimento, o passeio, a sinalização, entre milhares de outras possibilidades. Tudo pode ser reescrito com todas suas características dentro do computador, isto é chamado de BIM (Building Information Modeling).

Com o gêmeo digital dentro do computador com todas as suas características reais e suas condições de contorno dentro de um sistema computacional, é possível fazer o que quiser dentro de um ambiente controlado e simular o que bem entender: e se chover demais? E se esta determinada estrutura se romper? E se um caminhão bater neste pilar? E se? Enfim, podemos testar o que quisermos, e assim achar uma alternativa para aquele possível acontecimento.

Se todos os processos forem feitos de maneira digitalizada é possível definir o orçamento preciso e como será necessário atuar de forma mais rápida e eficaz. Cidades como Brasília e São Paulo, possuem milhares de estruturas como pontes/viadutos, é essencial o uso de tecnologias que automatizem e gerem informações confiáveis, testáveis e seguras. Uma coisa é certa, tudo o que escrevi aqui, o investimento é menor tanto no seu custo financeiro direto e indireto, quanto em tempo.

*Pedro Soethe é especialista técnico da área de Arquitetura, Engenharia e Construção (AEC) da Autodesk no Brasil

Crédito: Max Chen / Unsplash

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Transformação Digital e as Organizações

abdalla.jpg*Por Ricardo Abdalla
03/12/2018 - A Transformação Digital é um assunto estratégico para as organizações. Elaborar e implementar uma estratégia digital adequada para o negócio não é tarefa fácil, e vai muito além da incorporação de novos recursos tecnológicos aos fluxos de trabalho. Enquanto as organizações bem-sucedidas terão seu caminho pavimentado para o sucesso, aquelas que falharem estarão mais expostas aos riscos da ruptura digital, trazidas por um ambiente com o ritmo das transformações tecnológicas em aceleração contínua.

As organizações se deparam com a ruptura digital

A tecnologia tem sido o principal fator de transformação na maneira como as empresas produzem, interagem com seu ecossistema de parceiros, e comunicam-se com seus clientes. A rapidez com que a tecnologia da informação (PC, Internet, Mobile, Plataformas Digitais) é incorporada ao ambiente de negócios, digitalizando processos e indústrias e desmaterializando produtos e serviços, encanta e assusta. A história da tecnologia nos mostra que as mudanças tecnológicas ocorrem segundo uma curva exponencial, contrária à visão intuitiva linear do senso comum. Para uma parte significativa das organizações estabelecidas, acompanhar o ritmo das mudanças é difícil, custoso e gera enorme sobrecarga. Mas não há outra saída.

Em um mercado aberto e global, a todo momento novos entrantes exploram tecnologias emergentes e criam produtos inovadores. Com custos menores, melhores experiências de usuário e a agilidade de quem ainda não possui processos e sistemas legados, ganham mercado à medida em que as empresas incumbentes recuam para proteger suas margens, caindo na armadilha de oferecer ainda mais território aos seus novos competidores.

Embora varie de acordo com cada indústria, a ruptura digital é um fenômeno que previne as organizações de continuarem atuando da maneira em que estão habituadas, o que acontece, na perspectiva da organização que sofre a ruptura, de modo geralmente inesperado e com viés negativo. Mas há outra perspectiva possível, em que a ruptura pode ser vista como uma reciclagem que aposenta velhas formas de trabalho enquanto abre caminho para o novo.

A organização como uma máquina

Um paradigma é, basicamente, uma visão de mundo. Paradigmas persistem até que não sejam mais capazes de explicar novos fatos e evidências da realidade, quando então, são desafiados por uma nova visão capaz de incluir, em sua explicação do mundo, a nova informação. O século XX viu surgir e prosperar o taylorismo (desenvolvido pelo engenheiro Frederick Taylor, o pai da administração científica), no qual o modelo ideal de organização é análogo ao funcionamento de uma máquina, com departamentos especializados atuando como peças de uma engrenagem mecânica e estrutura hierarquizada, baseada em comando e controle. Por décadas, organizações que adotaram este modelo otimizaram custos, obtiveram aumento de eficiência operacional e dominaram seus mercados. O sucesso do taylorismo foi inquestionável.

Entretanto, as tecnologias emergentes e os consequentes processos de ruptura trouxeram instabilidade e risco para as empresas que enxergam o mundo pela ótica taylorista. Novas tendências desafiam o antigo paradigma, que se altera em face das mudanças trazidas pela era digital. Algumas destas tendências são ambientes de negócio em rápida evolução, com impacto direto nos padrões de demandas dos stakeholders (clientes, parceiros, órgãos reguladores), constante introdução de tecnologias disruptivas (IA, IOT, Blockchain), e o acelerado processo de digitalização e democratização da informação, com grande aumento no volume, distribuição e variedade dos dados.

A organização como um organismo vivo

O paradigma emergente precisa comportar a complexidade do cenário atual e estabelecer um novo balanço entre estabilidade e dinamismo. Os elementos de estabilidade são necessários para fornecer a direção apropriada ao negócio e prover suporte eficiente para a escalabilidade. Já os elementos dinâmicos são capazes de se ajustar continuamente às variações do ambiente em constante transformação. A estrutura estável se desenvolve mais lentamente e suporta as capacidades dinâmicas da organização, que se adaptam rapidamente aos novos desafios e oportunidades.

Quando organizada sobre estas premissas, a organização mantém uma estrutura executiva de alto nível estável, mas substitui grande parte da hierarquia tradicional por uma rede flexível e escalonável de pequenos times orientados por propósito. Redes são uma forma bastante natural e eficiente de organizá-los, pois balanceiam autonomia e liberdade com os esforços de coordenação coletivos. Como células em um organismo, os times precisam assumir de ponta a ponta a responsabilidade pela execução do seu trabalho e, para isso, necessitam ter capacitação e autonomia para a ação local rápida e eficaz. A rede dinâmica então é capaz de aumentar substancialmente a velocidade e a flexibilidade das entregas, além de alimentarem o sentimento de propriedade dos colaboradores. Os elementos estáveis e dinâmicos reforçam uns aos outros, exercend o influência positiva também sobre a resiliência e o engajamento da organização.

A Lei de Conway

Em 1968, uma empresa com 8 colaboradores foi contratada para produzir compiladores para as linguagens COBOL e ALGOL. Após as estimativas iniciais de dificuldade e tempo, 5 deles foram alocados no projeto COBOL, enquanto os outros 3 foram alocados no ALGOL. Quando o projeto foi concluído, verificou-se que o compilador COBOL funcionava em 5 fases, e o ALGOL em 3. Melvin Conway, programador envolvido no projeto, fez a seguinte observação, que ficou conhecida como a Lei de Conway:

"Organizações que desenvolvem sistemas inevitavelmente produzem projetos que são cópias de suas estruturas de comunicação."

Posteriormente, a observação de Conway acabou validada por pesquisadores do MIT, mas, o que ela realmente ensina é que a forma como uma organização é projetada dita como o trabalho é executado, o que influencia significativamente os resultados alcançados. Portanto, ao compreendermos esta ligação entre a estrutura organizacional e o resultado do trabalho produzido, podemos utilizá-la em nosso favor.

Gigantes como a Amazon, Netflix e o Spotify estão organizados em times que funcionam como pequenas startups dentro da companhia: independentes, multidisciplinares e guiados por uma missão de longo prazo. Cada time é responsável por um serviço da plataforma - uma parte da experiência do usuário. Estes serviços são projetados para serem desacoplados uns dos outros, de modo que possam evoluir de maneira independente, e sem excessivo esforço de coordenação. Como não há dependência de outras áreas, o tempo economizado permite aos times focar no que de fato gera valor para o negócio: atender as demandas dos clientes em interações rápidas, guiadas por experimentação e aprendizagem contínua.

Times orientados para o mercado

Vimos que o paradigma de máquinas estabelece a especialização funcional como base do seu modelo organizacional, agrupando profissionais por expertise com o propósito de otimizar custos, mas gerando em contrapartida considerável hierarquia, suportada pelos sistemas e processos que compõem o aparato burocrático. Como as organizações hierárquicas separam planejamento de implantação, a realização efetiva do trabalho tende a depender do consentimento das instâncias superiores da hierarquia, o que eleva o tempo de resposta da organização aos desafios do mercado.

Também vimos que o paradigma do organismo vivo propõe uma rede de times independentes, multidisciplinares e responsáveis pelo ciclo de vida completo de um produto (ou de parte dele). Estas características permitem à organização responder mais rapidamente as necessidades dos clientes e, por isso, os times são otimizados para velocidade e orientados para o mercado.

Quando comparados aos modelos de máquina, os times de mercado possuem maior autonomia, responsabilidade, são mais facilmente criados e dissolvidos, e a avaliação de seus resultados são mais diretas. No entanto, em seu estado "puro", possuem a desvantagem de diluir profissionais com determinada expertise funcional entre os diversos times da rede, causando perdas na economia de escala.

Para mitigar esse efeito, é possível estimular a formação de comunidades de conhecimento e prática que agrupem os profissionais com a mesma função dentro da organização. Estas comunidades têm a responsabilidade de atrair e desenvolver talentos, compartilhar conhecimento e experiência, além de proporcionar um sentimento de continuidade à medida que os profissionais alternem entre os diferentes times. Um exemplo são as guildas no Spotify. Na Europa medieval, as guildas agrupavam indivíduos com interesses comuns e proporcionavam assistência e proteção aos seus membros. No Spotify, há guildas para desenvolvedores, testadores, POs etc. Funcionam, portanto, como uma "cola" que mantém a organização unida e oferece alguma economia de escala, sem muito sacrifício para a autonomia dos times.

Transformação Digital é um esforço de longo prazo

Muito mais do que "transformar a experiência do cliente" ou incorporar as novas tecnologias digitais, transformar digitalmente uma organização envolve um esforço contínuo e de longo prazo para mudar não apenas a forma como a mesma faz negócios e interage com um ambiente complexo de rupturas e inovações, mas também a maneira como a empresa se organiza e opera em torno de valores-chave da cultura digital, como foco no cliente, colaboração e tolerância ao risco.

Em muitas organizações, o processo envolverá mudanças profundas, com impacto na proposta de valor, estrutura, estratégia, processos e modelos de negócio da organização, sem os quais qualquer iniciativa digital executada será provavelmente uma correção de curto prazo. Não importa quão bom seja o planejamento do projeto de transformação, ainda haverá surpresas e imprevistos, e as correções de curso serão inevitáveis. São nestas condições, inclusive, que os sistemas adaptativos sobrevivem e prosperam.

*Ricardo Abdalla é Head de Transformação Digital da Braspag

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