Data centers não são os vilões do meio ambiente, dizem cientistas

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Por Ethevaldo Siqueira
Com pesquisa do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley

Há alguns mitos que precisam ser esclarecidos sobre a suposta poluição causada pelos gigantescos data centers. Segundo dois renomados cientistas norte-americanos — Jonathan Koomey e Eric Masanet, essas acusações aos data centers não têm fundamento.

Ambos são ex-pesquisadores do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley. Koomey agora é analista independente, e o Masanet é professor da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara. Masanet recebe financiamento para pesquisa da Amazon.

As pesquisas dos dois cientistas concluíram que esses enormes data centers, ávidos por energia e muitas vezes do tamanho de campos de futebol — não são os vilões ambientais assim retratados com frequência nas redes sociais e em outros lugares.

Os dois cientistas disseram que sua análise não tinha necessariamente a intenção de ser tranquilizadora, mas simplesmente queriam injetar uma dose de realismo científico na discussão pública do impacto da tecnologia no meio ambiente.

“Estamos tentando fornecer algumas ferramentas mentais e diretrizes para pensar sobre nosso estilo de vida cada vez mais digital e o impacto no consumo de energia e no meio ambiente”, disse Masanet. O título da análise deles é “Evitando armadilhas ao avaliar os impactos de energia e carbono da Internet”.

Afirmações exageradas, segundo a dupla, costumam ser esforços bem-intencionados de pesquisadores que fazem o que podem parecer suposições razoáveis. Mas eles não estão familiarizados com a tecnologia de computação em rápida mudança — processamento, memória, armazenamento e redes. Ao fazer previsões, eles tendem a subestimar o ritmo da inovação na economia de energia e como os sistemas funcionam.

O impacto do streaming de vídeo no consumo de energia da rede é um exemplo. Depois que uma rede está funcionando, a quantidade de energia que ela usa é a mesma, estejam grandes quantidades de dados fluindo ou muito pouco. E melhorias constantes na tecnologia diminuem o consumo de eletricidade.

Em sua análise, os dois autores citam informações de duas grandes operadoras de rede internacional, Telefónica e Cogent, que relataram tráfego de dados e uso de energia para o ano de Covid de 2020. A Telefónica obteve um aumento de 45% em dados através de sua rede, sem aumento do uso de energia. O uso de eletricidade da Cogent caiu 21%, mesmo com o aumento de 38% no tráfego de dados.

“Sim, estamos usando muito mais serviços de dados e colocando muito mais dados nas redes”, disse Koomey. “Mas também estamos ficando muito mais eficientes muito rapidamente.”

Outra armadilha, dizem os autores, é olhar para um setor de alto crescimento da indústria de tecnologia e assumir que o uso de eletricidade está aumentando proporcionalmente e que é representativo da indústria como um todo.

Os data centers de computadores são um estudo de caso. Os maiores data centers, a partir dos quais consumidores e trabalhadores acessam serviços e software pela Internet, consomem grandes quantidades de eletricidade. Esses centros de dados em nuvem são operados por empresas como Alibaba, Amazon, Apple, Facebook, Google e Microsoft.

De 2010 a 2018, as cargas de trabalho de dados hospedadas pelos data centers em nuvem aumentaram 2.600% e o consumo de energia aumentou 500%. Mas o consumo de energia de todos os data centers aumentou menos de 10%.

O que aconteceu, explicam os autores, foi principalmente uma grande mudança de cargas de trabalho para os data centers em nuvem maiores e mais eficientes — e longe dos centros de computadores tradicionais, em grande parte pertencentes e administrados por empresas não tecnológicas.

Em 2010, cerca de 79% da computação dos data centers foi realizada em centros de computação tradicionais. Em 2018, 89% da computação de data centes ocorria em computação em nuvem.

“Os grandes provedores de nuvem substituíram data centers corporativos muito menos eficientes”, disse Koomey. “Você tem que olhar para todo o sistema e levar em conta os efeitos de substituição.”

A complexidade, o dinamismo e a imprevisibilidade do desenvolvimento da tecnologia e dos mercados, dizem os autores, tornam imprecisa a projeção por mais de dois ou três anos. Eles criticaram um artigo sobre o consumo de energia pelo Bitcoin que projetou décadas, com base no que eles disseram ser dados antigos e suposições simplificadas — uma abordagem que Masanet chamou de “extrapolar para o Dia do Juízo Final”.

Mas o Bitcoin, dizem os cientistas, é algo diferente — e uma preocupação. As tendências de eficiência em outras áreas da tecnologia são atenuadas porque o software especializado do Bitcoin passa por mais ciclos de computação à medida que mais pessoas tentam criar, comprar e vender moeda digital.

“É um ponto polêmico e sensível que precisa ser observado de perto e pode ser um problema”, disse Masanet.

Muito se desconhece sobre a mineração de criptomoedas e seu consumo de energia. Ela usa software e hardware especializados, e o sigilo cerca os grandes centros de mineração de criptografia na China, Rússia e outros países.

Portanto, as estimativas da pegada energética do Bitcoin variam amplamente. Pesquisadores da Universidade de Cambridge estimam que a mineração de Bitcoin é responsável por 0,4% do consumo mundial de eletricidade.

Isso pode não parecer muito. Mas todos os data centers do mundo — exceto aqueles para mineração de Bitcoin — consomem cerca de 1% de sua eletricidade.

“Acho que esse 1% é um uso muito bom e valioso”, disse Koomey. “Não tenho certeza se o mesmo é verdade para a parte do Bitcoin.”

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