Transformação das operadoras de telecom pós-covid

anatel_precos.jpg*Por Ricardo Bonora
07/07/2020 - Falar em operadoras de telecomunicações ainda é, quase sempre, sinônimo de pensar automaticamente em dois fatores principais: pacote de dados para a internet, provedoras de sinal e, em menor grau, pacotes de voz. Todos esses serviços são extremamente úteis e valiosos na sociedade atual – haja vista a dependência da conexão com a internet para realizar qualquer tipo de trabalho em home office, por exemplo – mas a margem de crescimento atual para esse tipo de serviço já começa a se tornar mais baixa do que o desejado para operadoras que ainda buscam crescer vertiginosamente nos próximos anos.

Do surgimento dos celulares à popularidade da TV a cabo, chegando à fibra ótica e avanços do 5G, a oferta dessas companhias migrou ao longo do tempo – mas nunca exigiu tanta criatividade e dedicação para enfrentar o cenário radicalmente diferente que está por vir. Numa era pós-COVID, com consumidores cada vez mais habituados a realizar todo tipo de tarefa e interação on-line, oferecer apenas dados é apenas a ponta do iceberg em termos de oferta aos consumidores. De fato, o confinamento pelo COVID causou uma demanda massiva dos recursos das operadoras devido ao aumento do trabalho remoto, à maior utilização dos recursos de formação online e às aplicações de comunicações pessoais como serviços de mensagens, videoconferência e redes sociais, cujo tráfego alcançou históricos recorde. Além disso, as plataformas de distribuição de conteúdo tiveram um incremento significativo de usuários.

Diante desse cenário, o que fazer? Qual o melhor caminho a seguir? Diversificar é a palavra. E as operadoras já vislumbram como podem obter mais receita a partir da fatia de mercado que atingiram com sua oferta tradicional. Nesse sentido, é possível identificar uma gama de caminhos a seguir, como o uso de IOT por empresas de diversos segmentos para melhorar a gestão dos equipamentos remotos, a cibersegurança, a análise avançada de big data, entre outros.

Em relação ao primeiro, a ideia seria fomentar um ambiente para gerar novos modelos de negócio a partir de parcerias, tornando mais robusta e inteligente a divulgação de conteúdo por parte de emissoras e OTTs.

Enquanto isso, outra abordagem que está na mira das operadoras é a de se tornarem entidades financeiras, configurando um modelo de negócio pelo qual poderão oferecer uma vasta gama de serviços, como meios de pagamento, financiamento de seus próprios produtos e empréstimos aos clientes, por citar algumas possibilidades. Para o sucesso deste novo modelo, as operadoras devem se valer dos benefícios da digitalização e o uso de avançados recursos tecnológicos, capazes de explorar todo o potencial da ampla base dados que o setor conquistou ao longo dos anos.

É claro que ainda existem barreiras (especialmente regulatórias) a serem superadas, mas as companhias entendem que é um desafio de médio prazo e que pode gerar ganhos significativos se cumprido com excelência.

É fundamental lembrar que não se trata de um trabalho de curtíssimo prazo. Algumas companhias já vêm se preparando para esse novo cenário com bancos de dados cada vez melhores, investimento em big data e alternativas para trazer o 5G para o país, cujo desenvolvimento multiplicará o volume de dados coletados, o que poderá facilitar a colaboração entre setores, tanto públicos como privados, e propiciar o desenvolvimento de novos serviços verticais. Além disso, a transformação para a virtualização de redes e o uso de cloud em entornos colaborativos, permitirá flexibilizar e otimizar o desenvolvimento de novos serviços, assim como encurtar o time to market de seu lançamento. Definitivamente, é primordial para as operadoras tirarem proveito da conectividade, articulando novas fontes de receitas baseadas na governança de dados até agora não capitalizadas. Também, será necessário realizar investimentos em cibersegurança com o objetivo de securitizar as comunicações no novo contexto atual. É sempre bom lembrar que isso vai exigir parceiros cada vez mais alinhados com as tendências e especializados no que a tecnologia oferece de mais novo continuamente.

A recompensa por estar atento é fundamental. Se a era da voz perdeu força nos anos 2000, é provável que a era dos dados precise de suporte para ganhar corpo durante os próximos anos. É mais uma prova de que a transformação digital atinge todas as áreas e provoca cada vez mais sinergias entre todos os setores para proporcionar serviços de qualidade aos cidadãos. As operadoras deverão continuar investindo em infraestruturas de rede e em sua operação, tanto para enfrentar a nova normalidade na qual a demanda massiva de serviços seguirá acontecendo, como em respostas a eventuais instabilidades e novas pandemias. O trabalho remoto e a formação acadêmica online chegaram para ficar, supondo um incremento notável do tráfego nas redes. É preciso estar atento para conseguir se diferenciar de forma positiva em meio a esse cenário durante os próximos anos. As companhias do setor que sejam capazes de tirar o máximo benefício de seus processos de transformação digital para se adaptarem a essa nova normalidade, estarão preparadas para enfrentar os novos desafios e liderar o mercado.

*Ricardo Bonora, head Cone Sul de Telecom e Mídia da Minsait, uma empresa Indra

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