Coronavírus não escapou de um laboratório

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Jeanna Bryner, editora-chefe do portal LiveScience, com tradução de Ethevaldo Siqueira
07/04/2020 - À medida que o novo coronavírus — que causa o COVID-19 — se espalha por todo o mundo, com número de casos que já ultrapassam 284.000 em todo o mundo (nesta sexta-feira, 20 de março), a desinformação se espalha quase tão rapidamente quanto o vírus. Um mito persistente é que esse vírus, chamado SARS-CoV-2, tenha sido produzido por cientistas e escapou de um laboratório em Wuhan, China, onde o surto começou.

Uma nova análise do SARS-CoV-2 pode finalmente descartar essa última ideia. Um grupo de pesquisadores comparou o genoma desse novo coronavírus com os de sete outros coronavírus conhecidos por infectar seres humanos: SARS, MERS e SARS-CoV-2, que podem causar doenças graves; juntamente com HKU1, NL63, OC43 e 229E, que geralmente causam apenas sintomas leves.

Esses pesquisadores publicaram no dia 17 de março de 2020 na revista Nature Medicine: "Nossas análises mostram claramente que o SARS-CoV-2 não é uma construção de laboratório ou um vírus propositadamente manipulado".

Kristian Andersen, professor associado de imunologia e microbiologia da Scripps Research, e seus colegas analisaram o modelo genético das proteínas spike que se projetam da superfície do vírus. O coronavírus usa esses picos para agarrar as paredes externas das células de seu hospedeiro e depois entrar nessas células. Eles analisaram especificamente as sequências de genes responsáveis ​​por duas características principais dessas proteínas de pico: o agarrador, chamado domínio de ligação ao receptor, que se liga às células hospedeiras; e o chamado local de clivagem que permite que o vírus abra e entre nessas células.

Essa análise mostrou que a parte do gancho evoluiu para atingir “um receptor do lado de fora das células humanas chamado ACE2”, envolvido na regulação da pressão arterial. É tão eficaz na ligação às células humanas que os pesquisadores disseram que as proteínas spike eram o resultado da seleção natural e não da engenharia genética.

Eis o porquê: O SARS-CoV-2 está muito relacionado com o vírus que causa a síndrome respiratória aguda grave (SARS), que se espalhou pelo mundo há quase 20 anos. Os cientistas estudaram como o SARS-CoV difere do SARS-CoV-2 — com as várias mudanças-chave de letra no código genético. No entanto, em simulações de computador, as mutações no SARS-CoV-2 não parecem funcionar muito bem em ajudar o vírus a se ligar às células humanas.

Se os cientistas tivessem deliberadamente projetado e produzido este vírus, eles não teriam escolhido mutações que os modelos de computador sugerem que não iriam funcionar. Mas acontece que a natureza é mais inteligente que os cientistas, e o novo coronavírus encontrou uma maneira de mutar que era melhor — e completamente diferente — de qualquer coisa que os cientistas poderiam ter criado, o estudo descobriu.

Outra falha na teoria da “escapada do laboratório do mal”?  A estrutura molecular geral deste vírus é distinta dos coronavírus conhecidos e, em vez disso, mais se assemelha a vírus encontrados em morcegos e pangolins, que tinham sido pouco estudados e nunca conhecidos por causar qualquer dano aos humanos.

"Se alguém estivesse procurando projetar um novo coronavírus como um patógeno, teria construído a partir da espinha dorsal de um vírus conhecido por causar doenças", de acordo com uma declaração de Scripps.

De onde veio o vírus? O grupo de pesquisa apresentou dois cenários possíveis para a origem do SARS-CoV-2 em humanos. Um cenário segue as histórias de origem de alguns outros coronavírus recentes que causaram estragos em populações humanas. Nesse cenário, contraímos o vírus diretamente de um animal — civetas no caso de SARS e camelos no caso da síndrome respiratória do Oriente Médio (SM). No caso do SARS-CoV-2, os pesquisadores sugerem que o animal era um morcego, que transmitiu o vírus para outro animal intermediário (possivelmente um pangolin, alguns cientistas disseram) que trouxe o vírus para os humanos.

Nesse cenário possível, as características genéticas que tornam o novo coronavírus tão eficaz em infectar células humanas (seus poderes patogênicos) teriam sido desenvolvidas antes de saltar para humanos.

No outro cenário, essas características patogênicas só teriam evoluído depois que o vírus saltou de seu hospedeiro animal para humanos. Alguns coronavírus que se originaram em pangolins têm uma "estrutura de ganchos" (aquele domínio de ligação do receptor) semelhante ao do SARS-CoV-2. Dessa forma, um pangolin passou seu vírus direta ou indiretamente para um hospedeiro humano. Então, uma vez dentro de um hospedeiro humano, o vírus poderia ter evoluído para ter sua outra característica furtiva — o local do recorte que permite que ele facilmente penetre em células humanas.

Uma vez desenvolvida essa capacidade, disseram os pesquisadores, o coronavírus seria ainda mais capaz de se espalhar entre as pessoas — e completamente diferente  de qualquer coisa que os cientistas poderiam ter criado, o estudo descobriu.

Todos esses detalhes técnicos podem ajudar os cientistas a prever o futuro desta pandemia. Se o vírus entrou em células humanas de forma patogênica, isso aumenta a probabilidade de surtos futuros. O vírus ainda pode estar circulando na população animal e pode voltar a saltar para humanos, prontos para causar um surto. Mas as chances de surtos futuros são menores se o vírus primeiro entrar na população humana e, em seguida, evoluir as propriedades patogênicas, disseram os pesquisadores.

Matéria atualizada em 07/04/2020 às 10h48

Crédito: © Andriy Onufriyenko / Getty Images

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