Don Tapscott anuncia o mundo do Blockchain

Por Ethevaldo Siqueira
13/04/2017 - O canadense Don Tapscott é um apaixonado divulgador do Blockchain, não apenas como livro-razão em que se registram as transações em bitcoins – a moeda virtual que começa a ser utilizada em todo o mundo. O Blockchain é muito mais do que isso: é uma tecnologia revolucionária que poderá funcionar como protocolo de confiança e que supera todas as demais tecnologias já conhecidas para esse tipo de armazenamento patrimônios e valores virtuais.

Don Tapscott concede entrevista exclusiva ao jornalista Ethevaldo Siqueira e divulga em seu Twitter

Ao entrevistar Don Tapscott, o que fascina nessa conversa face a face é ouvi-lo discorrer sobre as incontáveis aplicações do Blockchain, em muitas outras aplicações além da moeda virtual, como para armazenar documentos históricos, acordos, tratados, patentes, produções intelectuais e artísticas, material jornalístico, artigos especiais, legislação e registros de propriedade como escrituras de compra e venda de imóveis.

Como um pregador que anuncia transformações incríveis no mundo econômico, na vida social e até na redução das desigualdades, Don Tapscott está percorrendo países e continentes com a missão básica de mostrar o que é o blockchain, sua evolução, seu extraordinário grau de segurança e suas perspectivas.

Nesta sua passagem pelo Brasil concedeu entrevista exclusiva ao portal Mundo Digital, além de ter feito sua palestra, como keynote speaker do evento "Links Emergentes: Primeira Conferência Internacional de Blockchain do Brasil" (Emerging Links: The First Brazilian Internacional Blockchain Conference), realizado em São Paulo no Centro Tomie Othake.

Don Tapscott divulga sua entrevista em seu Twitter

Em seu twitter, Don Tapscott registrou a entrevista que me concedeu. Nosso primeiro diálogo ocorreu em Toronto há 35 anos. Agora, no dia 5 de abril de 2017, foi a quinta vez em minha vida profissional que tive a oportunidade de entrevistar esse grande especialista e divulgador mundial das inovações mais importantes do mundo digital.

Li pelo menos dez de seus 17 livros publicados. Um mestre, comunicador emérito.

O livro-razão da confiança

Blockchain é a solução mais segura que conhecemos até aqui. Mas nada é absolutamente seguro. O que torna extremamente improvável é a sequência de blocos, como se fossem numerosos computadores, que se interligam a milhares ou até milhões de outros computadores, cada um com uma barreira de senhas, nas palavras de Don Tapscott.

Diversos bancos e governos já utilizam Blockchain. Mas há muitos – inclusive no Brasil – que se opõem a essa tecnologia. "Não se trata de má-vontade dos banqueiros ou dos empresários de finanças. Eu vejo diversos tipos de reações de banqueiros. Num primeiro nível, a questão é de medo. No nível imediatamente superior, estão aqueles que ainda não perceberam as oportunidades de racionalizar suas operações, economizar dinheiro e cortar custos. E há uma montanha de oportunidades para se conseguir tudo isso. O problema é puro desconhecimento do potencial de transformações do Blockchain."

Um bom exemplo das mudanças de comportamento do setor financeiro e de investimento é o dos setores que já perceberam os aspectos estratégicos da implementação do Blockchain. E o melhor exemplo na visão de Tapscott é o da Nasdaq (a bolsa eletrônica de Nova York). Eles sabem que o mercado de ações vai mudar radicalmente ou, talvez, até desaparecer. Essa bolsa, entretanto, pensa estrategicamente e está fazendo uma série de manobras preparatórias.

 

 

O papel dos governos

Ao saber que o Congresso brasileiro tenta regular o Uber e equiparar esse novo serviço a um serviço público de táxis – com licenças e regras específicas – Don Tapscott acha essa não é a melhor decisão, mas, mesmo assim, pode ser contornada, com medidas complementares de modo a aprimorar o desempenho tanto de taxistas quanto de motoristas do Uber – com melhor educação, maiores exigências de qualidade de atendimento e de segurança.

Governos com frequência fazem coisas desse tipo. "Nos primórdios da internet, nos EUA, conta Tapscott, tentaram impor uma condição para os usuários da web: que todos tivessem uma licença de rádio faixa-do-cidadão (CB-Radio ou Citizen-Band Radio). Outro caso, ainda mais ridículo foi o de uma regulamentação do trânsito de automóveis de Londres que exigia, além da presença de um motorista, a de um navegador e de uma pessoa a caminhar na frente dos novos automóveis com uma bandeirinha vermelha, para não espantar os cavalos das carruagens."

Em quase todos os países, já existem leis que podem coibir a fraude e os crimes. Assim não há necessidade de mais leis para os novos serviços como o Uber – nem a regulação detalhista que pode invalidar todas as vantagens de coisas novas como Uber ou Blockchain.

Don Tapscott explica sua visão da posição dos governos. Para ele, "há dois tipos básicos de governos: aqueles mais lúcidos, que realmente se preocupam com o futuro e o bem da coletividade (e eu suponho que o governo brasileiro seja desse tipo)." Mas, por outro lado continua, "há, realmente, os governo idiotas que tendem a taxar e a regular tudo." Mas, há alguns exemplos animadores de casos, como nos Estados Unidos, o FBI já utiliza a tecnologia do Blockchain para combater a especulação e fraudes financeiras. Bancos centrais no mundo poderiam controlar custos e proporcinar melhores serviços.

No caso do Uber no Brasil, Don Tapscott diz acha que, como na maioria dos países, o governo brasileiro deve sim, cobrar uma espécie de imposto de varejo (como o ICMS do Brasil), em níveis bem baixos. Mas reconhece que suas ideias nesse ponto são criticadas por outros especialistas. E em geral, a maioria dos governos dificilmente admitiria isentar de impostos e taxas as transações financeiras em bitcoins e blockchains, sem nenhuma intermediação.

O que é essencial, na sua opinião, é que os governos percebam as vantagens de usar essa tecnologia em seus bancos centrais e criar essa criptomoeda, o que lhes permitiria controlar muito melhor o suprimento da moeda, reduzir a inflação e até acelerar o crescimento do PIB.

Don Tapscott exemplifica: "Se o Banco do Brasil, por exemplo, adotasse um terço de suas transações e financiamentos em bitcoins, o país poderia acelerar em pelo menos 4% o crescimento de seu Produto Interno Bruto."

Um projeto para o Brasil

Don Tapscott diz que "não há nenhuma razão que impeça ao Brasil de se tornar um novo centro mundial (world hub) para a segunda geração da internet". E dá exemplos de outros como Cingapura, Xangai, Londres, Toronto ou Mumbai (Índia), mas exclui o Vale do Silício, que tem outro papel e está um passo atrás.

"Mas o lugar ideal para isso, na minha opinião, é São Paulo. Para isso, como pré-condição, não cair na tentação de regular tudo desnecessariamente. Em segundo lugar, será criar as base do setor, como indústria. Isso trará prosperidade e todas as demais consequências positivas. Com um política tributária inteligente, com redução de impostos, o Brasil atrairá empreendedores, com bilhões dólares em investimentos, até usando blockchain para rastrear tudo, a Apple, Facebook, o Google, o Netscape e muitas outras."

Don Tapscott recomenda ainda que o Brasil dê prioridade ao atendimento de seu grande mercado interno e incentive ao máximo esse novo tipo de empreendedorismo setorial. E o primeiro grande cliente dessas inovações será o governo que deverá comprá-las e utilizá-las. Há muitas coisas que o governo pode fazer a partir de uma legislação inteligente nessa área, a começar de uma política, ou melhor, uma estratégia nacional de incentivo ao desenvolvimento do que chamamos de Economia Digital, algo como o Corredor de Blockchain, como sugeriu ao primeiro-ministro do Canadá, para ser implantado em Toronto.

O Brasil inteiro precisa ser mobilizado para realizar essa transformação: a sociedade civil, as empresas de eletrônica, um grupo de líderes e empreendedores. Até a mídia deve ser crítica, e seu papel pode ser importante num projeto dessa natureza. A mídia pode promover uma discussão de três dias, para ampliar a conscientização dessas questões.

Os desafios pela frente

Como será a evolução futura do Blockchain? Na visão de Tapscott, "em dez anos, os bancos serão instituições irreconhecíveis comparadas aos bancos de hoje." Ele prevê grandes transformações na estrutura das corporações em geral e surgirão grandes oportunidades e possibilidades de prosperidade em países como o Brasil."

Temos que pensar nas incontáveis vantagens do uso do Blockchain – para aplicações que vão muito além dos registros de moeda virtual. Mas Don Tapscott reconhece a existência de grandes obstáculos e desafios, tais como:

• A tecnologia não está pronta para "o horário nobre";
• A energia consumida é insustentável;
• Governos irão reprimir ou distorcer;
• Os operadores do velho paradigma irão usurpá-lo;
• Os incentivos são inadequados para a distribuição da massa colaborativa;
• O Blockchain é um matador de empregos;
• Conduzir os protocolos é como arrebanhar gatos;
• Agentes autônomos distribuídos formarão a Skynet;
• O Big Brother (ainda) está te vigiando;
• Os criminosos irão usá-lo.

Blockchain, a grande revolução pós-internet

Vale a pena conhecer a análise de cada um desses desafios e obstáculos no livro de Don e Alex Tapscott para analisar cada um desses desafios e aderir ao otimismo moderado dos autores. Para os interessados, damos os pormenores:

"Blockchain Revolution – Como a tecnologia por trás do Bitcoin está mudando o dinheiro, os negócios e o mundo"
Autores: Don Tapscott & Alex Tapscott
SENAI-SP Editora.

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