Apple atrasa eliminação de imagens de exploração infantil dos iPhones

Defensores da segurança e da privacidade irritam-se com a controversa decisão de varredura nos dispositivos

Reed Albergotti, do Washington Post

A Apple disse na sexta-feira que vai atrasar o lançamento de seus polêmicos planos de escanear dispositivos em busca de imagens de exploração infantil, depois que especialistas em segurança e privacidade alertaram que o software poderá trazer a vulnerabilidade dos iPhones e abrir uma porta dos fundos nesses smartphones, dando a governos e até mesmo hackers acesso aos dispositivos sem permissão.

Isso muda a posição da empresa, pois a Apple havia elogiado seu método de digitalização como um suposto aprimoramento da privacidade — o que poderia diferenciá-la de seus concorrentes. Mas a empresa parecia estar despreparada para a reação avassaladora que ocorreu. Seus principais executivos atribuíram a um erro de relações públicas a confusão a respeito da tecnologia que a Apple está usando.

A polêmica começou no mês passado, quando a Apple anunciou que iniciaria o lançamento de um novo software para capturar criminosos que trocam imagens de abuso sexual infantil. Embora a ideia não fosse nova, o método a ser adotado pela Apple era novo. Um banco de dados de números representando imagens de abuso sexual infantil ficaria nos telefones dos clientes, onde seriam verificados com as fotos enviadas para o Apple Photos, o serviço de armazenamento em nuvem da empresa.

Outras empresas de tecnologia, incluindo Facebook, Microsoft e Google, examinam seus próprios servidores em busca desse material. A Apple disse que faria a varredura em iPhones, usando métodos complicados de criptografia para garantir que só veria as fotos do usuário se 30 ou mais imagens de exploração infantil estivessem no telefone.


Uma vez que esse limite fosse alcançado, as imagens seriam descriptografadas e visualizadas por funcionários da Apple, que verificariam se as imagens constituíam ou não exploração infantil. O responsável pela criação daquelas imagens seria, então, entregue às autoridades.

O porta-voz da Apple, Fred Sainz, disse que não forneceria uma declaração no anúncio do dia 3 porque o Washington Post não concordaria em usá-la sem nomear esse porta-voz.

Embora capturar pessoas que trafegam imagens de crianças exploradas seja uma causa nobre, a ideia de não dar aos clientes da Apple outra escolha a não ser ter um software em seus telefones que detectasse atividades ilegais foi considerado um passo longe demais para muitos defensores da privacidade e especialistas em segurança.

“É encorajadora a reação que força a Apple a adiar esse plano de vigilância imprudente e perigoso, mas a realidade é que não há maneira segura de fazer o que eles estão propondo”, disse Evan Greer, diretor do grupo de defesa da Internet Fight for the Future. “A proposta atual da Apple tornará as crianças vulneráveis menos seguras, e não mais seguras.” E concluiu: “A empresa deveria arquivar esse plano permanentemente”.

A Apple disse que seus métodos de criptografia impossibilitam o uso indevido do software e que pesquisadores de segurança independentes podem auditar o software.

John Tanagho, diretor executivo do “Centro da Missão de Justiça Internacional para Acabar com a Exploração Sexual de Crianças Online”, discordou da decisão da Apple de adiar o lançamento do software.

Em comunicado, ele escreveu que “as mudanças da Apple seriam um passo à frente e não devem ser atrasadas”. “O mundo não deve elevar a corrupção hipotética e improvável de soluções de segurança infantil acima do conhecido e desenfreado uso indevido da tecnologia existente para prejudicar as crianças.”

A Apple também adiou outras mudanças de privacidade após protestos. Por exemplo, após uma reação da indústria de publicidade, a Apple adiou mudanças no lançamento de seu novo software que força os desenvolvedores de aplicativos a perguntar aos usuários se eles desejam ser rastreados. A empresa também atrasou e acabou mudando as regras que teriam proibido os aplicativos infantis de usar software de análise depois que os proprietários de muitos aplicativos infantis disseram que a mudança os colocaria fora do mercado.

 

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