O rádio nos abriu as portas do mundo

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Por Ethevaldo Siqueira, em 1º de setembro de 2020

O rádio está presente na vida humana há quase 100 anos. Se considerarmos a data da instalação da primeira emissora comercial do mundo, a KDKA, de Pittsburgh, no dia 2 de novembro de 1920, comemoraremos daqui a dois meses o primeiro centenário da radiodifusão. Se, entretanto, adotarmos o critério da primeira transmissão de sinais pelas ondas hertzianas em 1901, o pioneirismo cabe a Guglielmo Marconi.

radio mat


Mas, há controvérsias históricas, pois o Brasil teve um pioneiro esquecido nessa área: o padre gaúcho Roberto Landell de Moura. Hoje sabemos, com certeza histórica, que esse padre foi o verdadeiro inventor do rádio. E reitero que não há nisso nenhuma patriotada ou nacionalismo exacerbado. Foi ele que transmitiu pela primeira na história humana, meses antes de Marconi, na Cidade de São Paulo, não apenas sinais elétricos mas, inclusive, a voz humana em São Paulo, da Avenida Paulista à colina de Santana.

Mas, se falarmos da primeira emissora comercial de rádio do mundo, o pioneirismo pertence, sem dúvida, à KDKA, que nasceu no dia 2 de novembro de 1920, em Pittsburgh. Por isso, mesmo com dois meses de antecedência do centenário, quero iniciar a celebração do primeiro centenário da radiodifusão e de sua importância para a Humanidade.

O rádio na Segunda Guerra


Recordo que, há exatamente 81 anos, no dia 1º de setembro de 1939, as tropas nazistas invadiam a Polônia, dando início à Segunda Guerra. Embora tivesse apenas 7 anos, eu me lembro de ter ouvido, naquela data, pelo rádio, aquela notícia de impacto. E, como sabemos, por suas consequências, a Segunda Guerra foi muito pior do que todas as guerras anteriores: matou mais de 40 milhões de seres humanos ao longo de cinco anos. Relembro que, aqueles anos de guerra foram, para mim, um longo pesadelo, que marcou parte de minha infância e de minha adolescência.

Assim, o dia 1º de setembro de 1939 — para mim para o mundo — está associado definitivamente ao início daquela guerra, a mais terrível de História humana. Mas, naquele momento, não podíamos prever que seria tão dura e dramática.

Naquela data, eu e minha família ouvíamos pelo rádio, meio apavorados, as notícias sobre a invasão da Polônia pelas tropas nazistas. Já pressentíamos que dias terríveis viriam pela frente, com a eclosão de outra grande guerra. E tudo se confirmou horas depois, no dia 1° de setembro de 1939. Era o começo do conflito mundial que durou mais de 5 anos e foi uma espécie de pesadelo em minha infância e adolescência.

Curiosamente, eu já ouvia rádio em setembro de 1939, embora com apenas 7 anos. Em companhia de meus pais e meus irmãos mais velhos, eu acompanhava os principais noticiários radiofônicos. O rádio era nosso vínculo com o mundo. Durante o dia, sintonizávamos a PRG-4 Rádio Cultura de Jaboticabal. À noite, a Rádio Tupi de São Paulo ou a Rádio Nacional do Rio. Meus pais ouviam até a BBC, que tinha programas noturnos em português.

O rádio para a Humanidade


O rádio foi nosso primeiro grande meio de comunicação instantânea. As notícias da Segunda Guerra nos davam a impressão de que o conflito estava muito mais próximo de nós do que realmente estava. Quando eu ouvia o rádio naqueles tempos, eu me assustava, sem entender bem as notícias. Chegava a perder o sono e a ter pesadelos, ao ouvir falar de uma grande guerra.

Minha família era grande. Éramos 10 irmãos. Os mais velhos tinham entre 15 e 17 anos. Nosso primeiro temor quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, em 1942, era que nossos irmãos mais velhos fossem convocados, o que, felizmente, não ocorreu.

Meu pai era um apaixonado por rádio e pelas tecnologias de telecomunicações da época. Ele e meu irmão, Pauliceu, eram técnicos autodidatas em eletricidade e rádio. Só depois de alguns anos resolveram fazer curso Monitor, por correspondência.

De meu lado, acho que tenho as telecomunicações em meu DNA. Minha mãe, Mercedes, havia sido telegrafista em sua juventude. E nunca esqueceu os fundamentos da telegrafia, pois ainda era capaz de captar pelo rádio as mensagens pelo Código Morse ao ouvir as transmissões em ondas curtas.

Durante a Segunda Guerra, Mercedes muitas vezes ouvia pelo rádio, em ondas curtas, as transmissões de notícias pelo telégrafo Morse e nos traduzia aquela sequência de ruídos. E melhor que tudo: nos antecipava notícias como a queda da França em junho de 1940. Ou a invasão da antiga União Soviética em junho de 1941. Era um privilégio, em nossa cabeça, saber com antecedência tudo aqui que só seria divulgado horas depois nos noticiários do rádio, ou no dia seguinte, nos jornais.

Para nós, Mercedes era uma mulher à frente de seu tempo. E era, realmente. E o rádio era uma de suas ferramentas culturais.

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