Por que sentíamos tanto orgulho de trabalhar no Estadão na década de 60

Por Ethevaldo Siqueira
21/05/2020 - Quem viveu — como eu e Luiz Roberto Souza Queiroz, o Bebeto — o período mais duro da vida do Jornal “O Estado de S. Paulo” a partir de 1967, sabe o que era fazer jornalismo em tempos de autoritarismo explícito, de ditadura, censura, terrorismo, sequestros. Era nesse clima impensável que desenvolvemos a obstinada luta (do Jornal e de cada jornalista) pela redemocratização do País.

Na redação do Estadão, na Rua Major Quedinho, no centro de São Paulo, vivemos os primeiros anos de luta e de resistência à ditadura, seguidos de outros tão duros quanto os primeiros, na nova redação na Marginal.

Como Bebeto, trabalhei quase 45 anos no Estadão, como repórter, redator e colunista. Vivemos no período do final dos 1960 aos 70 na mesma redação, aqueles anos que consideramos os melhores de nossa vida, por duas razões:

1) Sabíamos por que lutávamos, e
2) tínhamos um grande orgulho do Jornal onde trabalhávamos.

Aqueles tempos nos são inesquecíveis porque convivíamos com figuras extraordinárias do Jornalismo brasileiro, desde Julio Mesquita Filho (nos dois últimos anos de sua vida), além de Julio Mesquita Neto, Ruy Mesquita, Oliveiros Ferreira e Fernando Pedreira.

Mas, para aquela geração de jovens jornalistas, da qual eu fazia parte, aqueles anos foram, de longe os melhores anos de nossa vida. Sabíamos perfeitamente a razão de nossa luta e nos orgulhávamos dela. Era a mais bela causa de nossa vida: a luta pela democracia e pela liberdade

As novas gerações não têm ideia do que é fazer Jornalismo de verdade sob uma ditadura. Tentarei descrever com mais profundidade e detalhes em livro que estou escrevendo e que relata o Brasil e o mundo nos últimos 50 anos, com foco especial no jornalismo.

Hoje decidi incorporar a esse futuro livro o texto que Bebeto publicou aqui neste Facebook, no dia 10 de maio de 2020, domingo. É o seguinte:

Orgulho do Estadão

Por Luiz Roberto Souza Queiroz
10/05/2020 - Depois de tanto tempo, voltei a ter orgulho do Estadão, ao ler hoje os artigos ‘Babás fardadas’ de Vera Magalhães e ‘Além do Churrasco’, de Eliane Cantanhede.

Ao contrário dos editoriais ilegíveis, com parágrafos de até 21 linhas (eu contei), cheios de apostos e que sei lá se alguém ainda tem paciência de ler (o termo preciso não é bem paciência), os artigos são precisos, objetivos e mais que tudo corajosos, pois certamente vão açular os cães raivosos de Brasília que, felizmente até agora latem, latem muito, mas não mordem.

Jornalista Luiz Roberto Souza Queiroz, o Bebeto

Os dois artigos são dignos do grande jornal em cuja redação trabalhei por 44 anos, dos jornalistas que passaram pela redação, Dr. Julinho, Ruy Mesquita, Paulo Duarte, Marcelino Ritter, Hélio Bicudo, Oliveiros, Pedreira, Gianino Carta e tantos outros com quem tive a honra de trabalhar e, principalmente, de aprender.

Importante ressaltar que as duas tomadas de posição extremamente corajosas foram feitas por jornalistas mulheres, comprovando mais uma vez que nossa profissão, no passado eminentemente masculina, tornou-se majoritariamente feminina e integrada por mulheres que honram o jornalismo.

O artigo da Vera certamente está fazendo morrer de vergonha os militares da ativa, que vêm seus companheiros que deveriam seguir o caminho usual dos ‘generais de pijama’ servindo não a um governo, mas a um presidente que deveriam aconselhar e corrigir em seus erros, mas que “apenas adulam, como avôs amorosos que agem com condescendência diante das diabruras de netos levados”.

Já o texto de Eliane coloca o dedo na ferida ao afirmar que “os generais do Planalto apoiam tudo o que seu mestre mandar até o fim, seja lá que fim seja”, concluindo que “em plena crise o Palácio do Planalto se transformou em creche presidencial”.

A seguirmos nesse caminho e diante do silêncio dos generais da ativa – quem cala consente – em breve estaremos vivendo novamente Anos de Chumbo. A diferença é que quando da passada ditadura, discordávamos, combatíamos mas respeitávamos os generais, Golbery, Geisel, até mesmo Costa e Silva com suas muitas limitações, Délio Jardim de Mattos, Augusto Rademaker e até acreditamos que as torturas e mortes ocorriam sem o conhecimento dos escalões mais altos.

Na ditadura que se aproxima, porém, o paralelo será com outro tipo de regime autoritário, com o de Hitler, provavelmente e o que é pior, antes mesmo do extremismo se implantar, está claro que a verdade não importa, pois as mentiras são anunciadas e repetidas de forma absolutamente impudica. Os fatos levantados pelo melhor jornalismo investigativo, são simplesmente desmentidos por um jorro de ‘fake news’ distribuídos impunemente pelas redes sociais, pagas com dinheiro possivelmente nosso, tranquilamente desviado.

Ainda bem que, minha geração jornalistas já aposentada, foi sucedida por jornalistas como a Vera, Eliane e outras poucas, mulheres na maioria. Resta saber, entretanto, se elas não estão caminhando para serem mártires da liberdade, nesses tempos que se aproximam e que estão ‘pintando’ serem ainda piores do que a pandemia.

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