Como atualizar nossos governos para lidar com a tecnologia disruptiva

Por Steven Parton, do Singularity Hub, com tradução de Thais Sogayar
11/09/2018 - O que acontece quando a evolução prepara um animal para conviver tribos de 150 indivíduos primitivos que vivem em uma selva caótica, e então de repente esse animal se encontra vivendo com milhões de outros em uma metrópole, com seus bolsos cheios de dispositivos de poder divino?

O resultado, ao que parece, é uma era moderna de tensão em que as formas arcaicas de governança lutam para acompanhar os avanços tecnológicos de seus cidadãos, onde as políticas governamentais agem como obstáculos constrangedores, em vez de pontas de lança de progresso.


À medida que a informação e o acesso aos recursos se tornam onipresentes, precisaremos cada vez menos de hierarquias ineficientes e burocráticas / Crédito: mmatee / Shutterstock.com

Simplificando, nossos governos não conseguiram se adaptar às tecnologias disruptivas. E se quisermos recuperar nossa estabilidade e avançar para o futuro, é imperativo que compreendamos os problemas que nos levaram a essa situação e que tipo de soluções podemos projetar para superar nossas fraquezas governamentais.

Hierarquia vs. Descentralização Tecnológica

Muitos dos maiores problemas que nossos governos enfrentam hoje vêm do desejo biologicamente enraizado da humanidade por hierarquias centralizadas. Essa propensão inata para construir e navegar em sistemas de status e hierarquia, são dons evolutivos que nos foram dados por nossos ancestrais símios, onde cada membro de uma comunidade tinha um mapa mental de sua hierarquia social. Seus sistemas nervosos se comportavam de maneira diferente, dependendo de sua posição na hierarquia, influenciando suas interações de uma forma que assegurava que apenas o macaco mais competente, subiria ao topo para obter acesso aos melhores alimentos e companheiros.

À medida que a humanidade emergiu e descobriu o poder da linguagem, continuamos essa prática, assegurando que aqueles estão no topo das hierarquias, aqueles com a maior educação e acesso à informação, fossem os tomadores de decisão dominantes de nossas comunidades. No entanto, esse tipo de cadeia estruturada de poder só é necessário se estivermos operando em condições de escassez. Mas os recursos, incluindo informações, não são mais escassos.

Estima-se que mais de dois terços dos adultos no mundo possuam agora um smartphone, oferecendo ao cidadão médio, o mesmo acesso às informações do mundo que os líderes de nossos governos. E com a pobreza global caindo de 35,5% para 10,9% nos últimos 25 anos, nossas gerações mais jovens estão crescendo acompanhando a automação e a abundância, como um padrão provável, onde inovações como energia solar, carne cultivada em laboratório e impressão 3D devem se tornar comuns.

Se esperamos ser um animal que sobreviva ao nosso ambiente em mudança, temos que nos adaptar

É a conscientização dessa mudança de paradigma que fortaleceu o recente aumento da descentralização. À medida que a informação e o acesso aos recursos se tornam onipresentes, há uma necessidade notavelmente menor de nossas hierarquias ineficientes e burocráticas.

Por exemplo, se o blockchain pode provar a sua viabilidade para sistemas de larga escala, ele pode ser usado para atualizar vários aplicativos para um modelo descentralizado, incluindo moeda e votação. Tais inovações reduziriam o risco de bancos falidos entrarem em colapso na economia, como fizeram em 2008, bem como impedir que políticos corruptos usem seu poder para influenciar o eleitorado a votar em algum candidato.

Claro, a tecnologia não é uma varinha mágica que deve ser implementada de forma descuidada. A abordagem “move fast and break things” (“mova-se rápido e mude as coisas”) do Facebook pode ter possivelmente rompido a democracia americana em 2016, já que a mídia social desempenhou algumas das piores tendências que a humanidade pode operar durante uma eleição: medo e hostilidade.

Mas se a tecnologia descentralizada, como os livros-razão do blockchain, puderem manter a segurança e a transparência em toda a sociedade, talvez possamos começar a acalmar a paranóia e a hiper vigilância, que nossos cérebros desenvolveram para lidar com a vida de macacos em selvas perigosas. Ao descentralizar nossas estruturas de poder, removemos os comportamentos biológicos ultrapassados ​​usados para promover a dominação e a manipulação social.

A paz de espírito que isso cria ajuda a restabelecer a confiança em nossas comunidades e em nossos governos. E com a confiança no governo aumentada, é provável que as próximas gerações sejam corrigidas.

Negócios, direito, ciência e tecnologia

Um estudo descobriu que 59 por cento dos presidentes dos EUA, 68 por cento dos vice-presidentes e 78 por cento dos secretários de Estado eram advogados por educação e ocupação. Isso é mais do que uma em cada duas pessoas nas posições mais poderosas do governo americano, restritas a um campo dedicado a convencer outras pessoas (juízes), que sua perspectiva é verdadeira, mesmo que não tenham evidências.

E assim, o método científico tornou-se menos importante que a semântica para nossos líderes.

Da mesma forma, dos 535 indivíduos no congresso americano, apenas 24 têm doutorado, dos quais apenas 2 estão em um campo STEM* (sigla de Science, Technology, Engineering, and Mathematics). E até agora, não está melhorando: Trump é o primeiro presidente desde a Segunda Guerra Mundial a não nomear um conselheiro científico.

Mas se pudermos usar tecnologias como blockchain para aumentar a transparência, a eficiência e a confiança no governo, então as futuras gerações que entendem de tecnologias de descentralização, abundância e exponencial podem se sentir inspiradas o suficiente para concorrer a cargos no governo. Isso ajuda a resolver esse problema comum em que as pessoas mais inteligentes e mais altruístas, tendem a evitar posições no governo, porque não querem jogar o jogo semântico e enganoso da política.

Ao mudar essa narrativa, nossos governos podem precisar de indivíduos tecnologicamente progressistas, que realmente compreendem as tecnologias que estão rapidamente remodelando nossa realidade. E essa influência da especialização será crucial à medida que nossos governos forem forçados a se reestruturar e criar novas políticas para acomodar disrupção.

Regulamentos de compensação para iniciar a experimentação segura

À medida que as tecnologias exponenciais se tornam mais onipresentes, é provável que vejamos jovens e criadores de automóveis criando AIs poderosas e alterando a genética graças à ferramentas como CRISPR e tutoriais de realidade virtual gratuitos.

Essa fácil acessibilidade a uma tecnologia tão poderosa significa que um progresso inesperado e rápido pode ocorrer quase da noite para o dia, sobrecarregando rapidamente os sistemas reguladores de nosso governo.

O Uber e o Airbnb são dois dos melhores exemplos da incapacidade do nosso governo para acompanhar essa tecnologia, ambas as empresas alcançando o domínio do mercado antes que os reguladores pudessem até mesmo considerar como lidar com eles. E quando um governo decidiu contra eles, eles ainda continuam a operar, porque as pessoas simplesmente optam por continuar usando os aplicativos.

Felizmente, esse tipo de interrupção ainda não representa uma grande ameaça existencial. Mas isso vai mudar quando as empresas começarem a desenvolver partes do corpo de ciborgues, interfaces cérebro-computador, injetores de saúde nanobot e kits de engenharia genética caseiros.

Por esse motivo, é crucial que tenhamos especialistas que entendam como atualizar nossos leis para serem tão flexíveis quanto for necessário, para garantir que não criemos condições do mercado negro, como fizemos com drogas. É melhor ter experimentação segura e monitorada, em vez de forçar os indivíduos a entrar em comunidades com problemas, usando produtos não seguros (ou ilegais).

Sobrevivência envolve adaptação

Se esperamos ser um animal que sobreviva ao nosso ambiente em mudança, temos que nos adaptar. Não podemos nos apegar a comportamentos e sistemas formados há milhares de anos. Em vez disso, devemos reconhecer que agora existimos em um ecossistema de tecnologia disruptiva, e precisamos evoluir e atualizar nossos governos, para que eles sejam capazes de navegar nesse mundo da transformação digital.

*Que significa STEAM?

Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), anteriormente Ciência, Matemática, Engenharia e Tecnologia (SMET), é um termo usado para agrupar essas disciplinas acadêmicas. Este termo é usado principalmente quando se trata de políticas de educação e escolhas curriculares nas escolas, para melhorar a competitividade no desenvolvimento de ciência e tecnologia. Isso tem implicações para o desenvolvimento da força de trabalho, preocupações com segurança nacional e política de imigração.

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